Pintura no Café Santa Cruz

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De linha clássica remoçada há na exposição de Ana Afonso Alves com certo futurismo bem estruturada como trabalha a tela, uma revolta contra si mesmo que me facilita a “escrita” dos seus caminhos que podem desde já constituir páginas de antologia.

Foge, portanto, do absconso, do abstruso, e descamba, em consciência para o impressionismo acrescentando-lhe nervo, sangue, inteligência e rara intuição de tão bem conceber os motivos numa forma ousada que lhe motiva os conteúdos.

Há, por outro lado, uma ordem cósmica dum invulgar talento na sua pintura que faz meditar o espetador como reveste os conteúdos, como inventa cores e numa soberba liberdade da criação, pois vive a luta de criar, como ascese que lhe está no espírito.

Hoje falece-me a estatura de crítico para usarmos o crónica ou para escrevermos em situações avulsas sobre esta pintora que chega ao alto da montanha no trilho que mais a dignifica na criação multifacetada onde se entrechocam várias tendências.

A sua pintura, aquela exposta no lendário Café Santa Cruz, é o seu lastro espiritual de voos originais e é já uma tentação retórica nos meios culturais.

Linguagem exata. Dignidade nas facetas levadas desde o expressionismo ao impressionismo. Bom desenho. Reabilita o desenho nesta escala de valores. A cor é sagaz, atrevida, remanesça e revoltada. Entrechocam-se tantas emoções no espírito da pintora. Ela está nos seus magníficos quadros. Tem a sua marca. E até na utopia. Nas ilusões. No destino opulento de criadora.

Ana Afonso Alves no domínio perfeito de um cromatismo que racionaliza a imagem com a consciência técnica nas diferentes escolas que estuda, e revela, singularmente, no jogo soberbo da cor e das figuras esboçadas adivinhadas e sentidas em várias experiências que se juntam e definem esta artista na sua trajetória que percorre caminhos inéditos para o nosso meio e representa a sua versatilidade cultural.

De vez em vez o emblemático Café Santa Cruz, além dos seus constantes eventos culturais, apresenta ao público pintores de valia intrínseca ou de pensamento discursivo.

E esta pintora tem uma intenção processual da arte viva, atual, do nosso tempo onde somente sobrevive o verdadeiro artista. O criador.

MANUEL BONTEMPO