Amigos evocam Fausto Correia no centenário de “O Despertar”

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Saudade, emoção, alguma nostalgia mas também muitos sorrisos e risos marcaram a tertúlia que recordou, na passada sexta feira (21 de abril), Fausto Correia. Promovida pelo “O Despertar” no âmbito das celebrações do seu centenário – a decorrerem até final do ano –, esta homenagem juntou mais de 60 amigos, de vários quadrantes políticos, convidando todos a partilhar memórias e histórias do homem que, quase dez anos após a sua morte, continua a ser recordado pelo seu grande coração.

O restaurante Gustav, na Quinta de S. Jerónimo, em Coimbra, estava repleto. Certo é que não tinha espaço suficiente para acolher todos os amigos que Fausto Correia fez durante a sua vida mas, mesmo assim, eram mais de 60 aqueles que, tendo privado muito de perto com Fausto Correia, se associaram agora a este jantar/tertúlia que “O Despertar” promoveu no âmbito das celebrações do seu centenário, que começaram no passado dia 2 de março com a publicação da edição comemorativa, seguida do almoço dos Colaboradores três dias depois.

Esta foi, portanto, uma noite de afeto, de saudade e de muita emoção. Foi uma reunião de amigos do Fausto Correia, onde se encontraram pessoas de todos os partidos políticos, demonstrando bem que, apesar das suas convicções, ele foi um homem de relações transversais, que cultivou a amizade e a solidariedade acima de tudo.

Quase dez anos após a sua morte, ocorrida a 9 de outubro de 2007, quando tinha apenas 55 anos e todo um mundo de projetos pela frente – onde, como fazia questão de afirmar, se incluía o centenário de “O Despertar” -, foram muitos os que se associaram a esta homenagem, como Jorge Coelho, Manuel Queiró, Manuel Machado, Ana Abrunhosa, Rui Alarcão, Dias Loureiro, Pedro Machado, Mota Pinto, Pinto Monteiro, Alves Correia, entre outros.

Na presença da esposa Maria de Lurdes Correia e dos filhos Miguel e António Correia (José não pode estar presente), os amigos Manuel Queiró, Jorge Coelho e Manuel Machado recordaram com saudade Fausto Correia.

Manuel Queiró, presidente da CP, destacou a “amizade e solidariedade de Fausto” como uma das suas principais características. Recordou que para ele “não havia causas difíceis” e que fazia do “segredo” a condição para “fazer o bem e ajudar os outros”. Defensor da liberdade, era também “um apóstolo da tolerância” e, “de uma certa forma, o símbolo de uma geração e até de uma época”. “O Fausto é um bom motivo para nós nos lembrarmos de nós próprios numa época que era radicalmente diferente, para melhor, dos tempos que se vivem”, disse, afirmando que há “uma emoção que se transforma numa nostalgia” quando um grupo de amigos se junta para o evocar, como sucedeu agora nesta tertúlia de “O Despertar”.

Jorge Coelho recorda

“um gigantesco humanista”

Jorge Coelho, ministro de quem Fausto Correia foi secretário de Estado, recordou o amigo, o homem, o político e a obra que nos deixou a todos.

De forma emocionada, falou de “um dos maiores amigos” da sua vida e partilhou algumas histórias vividas, que conduziram a grandes projetos e mudanças sociais – como a criação da rede de Lojas do Cidadão em Portugal e a abertura de alguns serviços públicos à hora de almoço.

O Fausto é um precursor da ‘geringonça’. E porquê? Porque eu vejo a ‘geringonça’ andar a discutir há já um ano a questão dos precários em Portugal, e o Dr. Fausto Correia, como secretário de Estado da área, integrou 93 mil precários na administração pública e fez, geriu e dirigiu o único acordo que até hoje o Governo fez com todos os sindicatos da administração pública”, sublinhou, dando ainda conta que, na altura, Fausto geriu um processo de recenseamento de 680 mil funcionários públicos e foi ainda responsável pela criação da “Empresa na Hora”, projeto criado em conjunto com o ministério da Economia e que ficou na história do país.

Se fiz algumas coisas positivas na vida política devo-o muito a ele porque ele foi o meu braço direito, o meu braço esquerdo, muitas vezes a minha cabeça… Era um grande amigo, de uma solidariedade e de uma lealdade absolutamente notáveis”, disse.

E neste partilhar de memórias foram evocadas também situações caricatas e divertidas que despertaram sorrisos e risos da audiência, como a história dos dentistas brasileiros que tanta “tinta” fez correr e que foi habilmente resolvida por Fausto Correia, cabendo os “louros” a Jorge Coelho, que chegou mesmo a ser reconhecido publicamente por esse feito.

O Fausto era um lutador pela liberdade, era um homem de enorme tolerância, um republicano a sério, um combatente forte do PS. Mas o Fausto Correia era um gigantesco humanista”, sublinhou, considerando que este jantar é “um reflexo” das ligações que tinha permanentemente com “pessoas de todas as correntes políticas e de todas as áreas religiosas”.

E por falar em religião, Jorge Coelho assumiu ainda que tinha um problema: “se eu fosse católico acreditava que um dia destes ia ter com ele e garanto-vos que me ia divertir muito com ele ao contar-lhe o que tenho visto nestes últimos dez anos a acontecer aqui neste país e com tantos amigos dele e meus”. Mas como não partilha dessa crença, admite que se lembra dele “muitas vezes”, que vai falando com ele e não esconde a falta que Fausto lhe faz, já que era um homem com “características que é raro encontrar-se, principalmente nos partidos e na vida política”.

Manuel Machado recorda

traquinicesde juventude

Coube a Manuel Machado recordar algumas das peripécias mais divertidas da noite. O presidente da Câmara de Coimbra recordou o sonho de Fausto de ver “O Despertar” chegar ao centenário e, de forma emocionada, evocou o “nosso saudoso Faustinho” através de alguns episódios vividos ainda em “miúdos”, quando era frequente recorrerem ao carro do pai de Fausto (que preferia andar a pé), muitas vezes no escuro da noite, para viajarem até à capital. Tudo normal não fosse um dia a viatura ser roubada em Lisboa, para grande preocupação de Fausto que temia as represálias do severo pai. “Manuel Cigano”, amigo de escola de Fausto, resolveu o assunto com um telefonema de uma cabine pública (ainda ninguém sonhava com telemóveis) e, como prometido, às cinco da tarde o carro apareceu “milagrosamente” no Terreiro da Erva, em Coimbra.

Manuel Machado partilhou com os amigos de Fausto outros momentos marcantes, alguns mais sérios, e que demonstravam bem a fidelidade que tinha para com os seus amigos, não se poupando a esforços para os ajudar fosse qual fosse a sua dificuldade. Evocou, ainda, o ambiente das tertúlias partilhadas e que tanto significado tinham para o homenageado, sendo de destacar as realizadas no Café Trianon, em Coimbra.

O autarca não esquece o carinho que Fausto tinha pelo seu “Despertar” e agradeceu ainda a todas as gerações que trouxeram o jornal até ao centenário, considerando que este é “um jornal de causas”, que sempre defendeu Coimbra, “mesmo quando era o único que persistia em defender causas de Coimbra e mesmo quando tinha menos capacidades económicas”.

Manuel Machado aproveitou ainda esta reunião de amigos, onde se abordou também a história da Imprensa Regional (ver caixa), para anunciar que a Câmara vai editar um livro sobre a história do jornal que deverá ser apresentado no Dia da Cidade, a 4 de julho.