A magia da poesia

//A magia da poesia

Os livros do poeta Paulo Ilharco, assaz diferentes que se fazem rodear de uma segurança professoral no trato do verso e duma ortodoxia conceitual, tem neste último livro a elasticidade intelectual e a profundidade dos primeiros livros.

O poeta usa a metáfora e uma linguagem acentuadamente profunda e extensa como usasse a tese aristotélica ou o pensador filosófico onde, amiúde, surge o corpo e o espírito do verso numa paisagem platónica ou numa contemplação de inspiração agónica tornando, não raro, a poesia num canto na busca duma identidade que se vai harmonizando através de páginas na visão da mundividência, ou seja, o verso é a essência que lhe dá por acréscimo a unidade e a verosimilhança da beleza do ato de existir na comunhão com o mundo.

Poeta sublime. Contador de histórias em verso. Dos mais brilhantes do país com uma dezena de livros brilhantes e já hoje de timbre ibérico e mesmo noutras áreas culturais além fronteiras onde se cultiva o português.

A heterogeneidade da sua cultura, como professor de literatura, é, em Paulo Ilharco, uma atitude social como traço formal dum triplo critério: o simbolismo partilhado pela lógica, as imagens dadas pela frieza germânica e o descritivo dum ser que não se encontra porque o seu espírito e o seu coração estão espalhados pelo seu universo.

Poeta singular, o seu “canto” contribui para o aperfeiçoamento do homem enquanto ser coletivo.

Os seus livros são uma espécie de uma nova filosofia em aprofundar o homem num direito ambicionado de comunicação e nunca cai no acaso uma ideia limpa e saudável.

Alguns dos seus livros procuram não isolar o homem como ser gregário das suas virtudes e das suas ansiedades sociais.

Este poeta de Coimbra libertou ideias, conceitos e criou novos caminhos ou outra forma de acontecer poesia no seguimento do universo de significações dos seus pares em sucessivas e bem sucedidas experiências poéticas.

Coimbra foi – e é – terra de grandes poetas. Uns já partiram e outros ainda caminham pelas nossas ruas.

Há, ainda, neste poeta um instinto de humanização que apaga o nefasto narcisismo que acontece no confessionalismo lírico de muitos poetas ou o hermetismo orgânico expresso em poesia difusa de tantos livros editados para a vaidade dos fazedores do ridículo…

Ausente fora do país só agora leio o último livro deste poeta e o autor está todo inteiro fiel à arte literária, e de livro para livro, o prazer do cronista, do crítico e do leitor mantém-se igual numa adesão humana ou constitucional pela carga afetiva.

Ali e acolá em certos pedaços da extensa feitura poética lembra uma canção de Jacques Brel ou Georges Brassens como eu ouvi há largos anos em Paris e este novo livro de Paulo Ilharco fala em tudo o que é a vida, amor, morte, tédio, esperança, os dotes subjetivos e objetivos de sua fantástica recriação humana, a sua mundividência, o seu mundo, no fundo a sua universalidade e comunicabilidade expressa numa dezena de livros de raro fulgor.

A bem de Coimbra e da cultura nacional.

MANUEL BONTEMPO