Testemunhos: António, estás a cair no esquecimento?

//Testemunhos: António, estás a cair no esquecimento?

Trago hoje o nome António à liça, apenas pelo facto de ter a convicção formada de que está em desuso. Sinto nostalgia, fundamentalmente, quando é substituído por outros, fruto de preconceito, vaidade ou influência de outras esferas culturais que pouco têm a ver com a história social e cultural portuguesa.

António, «talvez o nome mais popular da antroponímia portuguesa, permanece de origem obscura, se bem que alguns lhe encontrem etimologia etrusca que deu em latim ‘antonius, “inestimável”, ou etimologia grega, anthonomos, “que se alimenta de flores”. É certo que existia já em Roma, designando uma “gens” famosa, da qual o mais conhecido é Marco António». Atente-se aos ensinamentos de Orlando Neves no seu Dicionário de Nomes Próprios, editado pelo Círculo de Leitores.

António tem, no entanto, um Santo como seu primeiro «zelador» – Santo António, muito provavelmente, o mais popular de todos os santos. António é um intelectual do seu tempo e o primeiro doutor da ordem franciscana, mas devotou parte da sua vida à pregação popular, avocando a si, a atenção de toda a grei. Dizem os biógrafos que os primeiros milagres surgem no dia do enterro, em Pádua.

O encantamento exercido por António, durante a sua vida terrena como pregador viajante, sábio e santo, difundiu-se, após a sua morte e canonização, pela Europa. No decorrer dos séculos XIII e XIV, Santo António é venerado em Lisboa. É reverenciado também na diocese de Pádua. A devoção não tarda a espalha-se por todo o planeta.

Não admira, pois, a existência de vários registos desse nome em todo o mundo. Antonio em espanhol e em italiano; Antoine em francês; Anthony em inglês; Anton em escocês e eslavo; Antonius em alemão.

A veneração antoniana em Portugal é enorme. Todo o país conhece Santo António e ele está presente, de um modo geral na vida social, cultural e pessoal dos portugueses. Transformou-se num extraordinário advogado das coisas perdidas e dos casamentos. Muitas eram também as pessoas que adotavam o seu nome para batizarem os filhos, confiando-os ao seu amparo. Esta tendência criou raízes no século XVI, sendo nalgumas regiões o nome masculino mais comum. De tal forma que gerou o antropónimo feminino Antónia.

Neste contexto não será descabido o significado de António: valioso, de valor inestimável, digno de apreço.

Assim sendo, relembre-se: António Vivaldi (1678-1741) compositor e músico italiano; Antoine de Saint-Exupèry (1900-1944) escritor francês; Padre António Vieira (1608-1697) escritor e pregador português da Companhia de Jesus; António Alves Redol (1911-1969) escritor português; António Nobre (1867-1900) poeta português; António Gedeão (1906-1997) físico, escritor e poeta, também português; António Gaudi (1852-1926) arquiteto espanhol. Etc. Etc., Etc.

O seu desaparecimento desassossega-me o entendimento… e um dia «poetei» para um pequerrucho chamado António. Foi buscado nos meus arquivos, propositadamente, para inquietar alguns pais no momento de elegerem o nome do seu filho.

António!

Tu sabes, eu sei,

Que ser criança é achar que o mundo,

Lá no fundo,

Não tem lei.

É feito de fantasias,

De loucas maresias,

Sorrisos e brincadeiras,

Imaginários,

Heróis, corsários e trepadeiras.

António!

Tu sabes, eu sei,

Que ser criança é correr ao encontro da

Lua,

E considerá-la só tua;

E acreditar num mundo azul,

Sarapintado a cor – de – rosa,

Com baldes de pipocas,

Batatas fritas e consolas,

Ronaldo, bolas,

Carambolas,

Morangos com açúcar.

António!

Mas ser criança também,

É vislumbrar mais além,

Sorrir e fazer sorrir,

Estudar e saber,

Aprender a ser.

É esta andança,

Que te faz valioso, de valor inestimável, digno de apreço,

António, ainda criança…

ANTÓNIO INÁCIO NOGUEIRA