Achegas para o perfil de Pedro Olaio (Filho)

//Achegas para o perfil de Pedro Olaio (Filho)

Dos mais prestigiados artistas portugueses é na pintura, no modo de mexer nas tintas, de espalhá-las na tela, esvoaçando, numa anulação de fronteiras, de geometrias, a sua arte tem a convivência entre a terra e o homem, num raro bucolismo iluminado pela cor sui generis, diferente, numa infinitude física e no espaço intemporal que só por si, que é muito, torna este inventor de formas, impressionista, expressional nas distâncias, na segurança dos planos, um criador.

Este insigne pintor, notável por toda a Europa, nomeadamente, Itália e França com incursões demoradas mais a Leste, a sua profunda arte tem a zona incônscia e tumultuosa dos instintos e da razão, dos valores do conhecimento dados por formatismos estetizantes, que se renovam, em óleos soltos, e culminam numa atitude quase pedagógica pela verticalidade.

Esta conduta favorece-lhe o caminho além fronteiras nas perspetivas inéditas, numa curiosa “dimensão universalista” não obstante este fulgurante artista se refugia, de vez em vez, num determinado egocentrismo que é salvo pela palete alacre, viva, em contraste com uma espécie de “solidão” escolhida ou genética.

Pedro Olaio (Filho) é um artista multifacetado pelo desenho e pelo cromatismo único na Península Ibérica onde tem uma legião de admiradores, quiçá, como tem por esta Europa que lhe reconhece a sua “narrativa” com os pincéis e a beleza numa estrutura ternária que lhe alimenta o discurso sempre atraente e o canto à natureza inteira e ao homem como centro do mundo como tanto gostaria Protágoras. É que este insigne investigador da ciência da arte capta em pleno todas as virtualidades de tudo que o rodeia e transforma, embeleza, de velho transforma em novo, mas cria, trabalha, nada está feito (ready made) porque não usa o copismo ou a tralha dos angustiados borra telas.

Este genial autor trabalha o material num senso personalista em sonhos, mitos, alegorias, símbolos, nos ícones, nos sistemas mediáticos ou mesmo didáticos, numa ronda livre pelo mundo, por tudo que lhe vai dentro mostrando sem rodeios o seu pendor filosófico ou uma certa boémia tipo Utrillo.

E não será a sua paixão pela Canção de Coimbra onde a sua voz se faz ouvir até à oitava? Ou de ser velho tuno do Orfeão da Universidade que lhe empresta a boémia tão característica da cidade do Mondego?

Há a bem dizer em muitos quadros deste mestre uma fisionomia sociológica, uma fotogenia humana, a ideia do artista singular viver sempre no domínio exclusivo das paixões.

Ou será um racionalismo maniqueísta que representa, em última instância, o eterno amor pelas mulheres fonte da vida?

Grande pintor! Sempre novo!

Os anos passam e a sua juventude fica nos magníficos quadros espalhados, discutidos por todo o universo; este criador da beleza parece conservar o fulgor dos seus vinte anos quando, como seu contemporâneo, dedilhávamos a guitarra de Coimbra.

Do muito que escrevi sobre a sua cintilante obra e do homem, generoso e sarcástico, hoje após tantos anos todos os seus admiradores sentem-se orgulhosos pela entrega da Medalha da Cidade e de lhe ser dado o seu nobre nome ao “Museu de Arte”, no Convento São Francisco.

A gratidão entrelaçada entre a ética e a psicologia conta no fundo a verdade e foi assim que a Câmara Municipal de Coimbra homenageou Pedro Olaio (Filho), este símbolo maior da pintura portuguesa.

Culto. De pendor filosófico, conversador esclarecido, por vezes rezingão, possui uma atitude crítica supletiva pela originalidade e pela virtude de situar a sua extensa e multifacetada obra na cultura viva, que é, por si uma rara genealogia filosófica nas particularidades constitucionais do artista, criar, ser diferente, numa larga fase de reflexão que torna Pedro Olaio (Filho) uma individualidade de fama internacional.

Deu aulas na Itália e em França desenhou, pintou, palestrou, na utopia de criador de novos mundos, na insatisfação, na procura de ir mais além na conversa, na palestra, na demonstração ao ar livre rodeado de artistas, do público ávido de saber.

Como Sócrates, o grego, também ensinou, em parte, Saint Germain dès Près, a céu aberto.

Debateu o metier em dialética entusiasta o universo da arte em mil imagens.

É consolador ver justiça feita em vida dos autores, escritores, poetas, escultores, músicos, de gente que embeleza o nosso enfadonho quotidiano.

Pedro Olaio (Filho) na sua ânsia ontológica de se dar ao mundo foi e é criador de arte dos mais talentosos dos séculos XX e XXI.

A sua arte é uma página soberba de ciência, de criar, de alta expressão rítmica, um laborioso estado espiritual latente, a levar cada qual a participar na própria arte, na intuição e no trabalho da forma, da beleza originariamente poética e seguidamente sensorial.

A pintura, o criador da beleza, como a definiu Tomás de Aquino: “É tudo o que agrada à vista”.

E a arte poderosa de Pedro Olaio (Filho) é o belo que agrada tanto à vista, tantas vezes intelectualizada para espiritualizar correntes estéticas numa implícita análise poética.

Este mestre criou uma teologia urbana e uma visão mística, como combina o “humano com a vida”, numa atitude de autocrítica que lhe dá uma grande expressão formal.

O mestre Pedro Olaio (Filho) é dos pintores maiores do universo.

E é português!

 MANUEL BONTEMPO