Testemunhos: Praia de Pedrógão. A MINHA praia.

//Testemunhos: Praia de Pedrógão. A MINHA praia.

Comecei a ir para o Pedrógão, a única praia do concelho de Leiria, há 52 anos, altura em que iniciei o namoro com a minha mulher que, por sua vez, colocou os pés no areal branco, muito mais cedo do que eu, há 72 anos – uma vida.

Há coisas que me marcam. Uma imagem, um cheiro, um som, uma palavra, um silêncio.

Este lugar tinha tudo isso e abraçou-me até aos dias de hoje. O seu Mar imensamente azul e aquele Sol que sempre nasce tímido, mas se encosta ao azul das águas, deslumbrado e deslumbrante, foram, quantas vezes, os meus companheiros!… Com esse mesmo Sol que desaparece em paz na linha do horizonte, por entre tons de vermelho e de amarelo vivos, rememorei momentos de felicidade simples.

No Pedrógão passei muitos dos meus tempos de lazer, mas também de reflexão. Aqui escrevi as partes mais importantes dos livros que tenho vindo a publicar, (des) lembro o dia de amanhã, o azedo da vida, o egoísmo mesquinho de alguns e a perfídia perversa de tantos outros.

Esse sítio é, para mim, o porto de abrigo onde atraco o meu barco viageiro para refazer forças… é a box onde encosto o carro da vida quando finalizo mais uma corrida…

Quando era jovem, e só vinha no mês de agosto, a chegada era um alvoroço mas a partida dolorosa. Sentado no paredão da esplanada pensava, olhando o mar, como teria começado tudo aquilo, quem teria sido o primeiro habitante e porque teria escolhido aquele sítio de sonho entregue às gaivotas, aos ventos e às espumas. Olhava-as acima do mar e da costa, brancas, ligeiras, finas. Elas voavam, puras e livres, como eu gostava de ser!…

Respirava fundo e armazenava, para o resto do ano, as últimas brisas e aromas, sonhos de amor. Aspirava a fragrância da inesquecível maresia que saracoteava pela aragem morna. Levava tudo comigo. O Atlântico e o barco da Xávega que parecia vogar por uma floresta de estrelas.

Hoje, tudo se passa da mesma maneira, só o fôlego do respirar o mundo já me abarca e sufoca, por via da idade que não se compadece com a utopia e o sonho.

Devo muito a esta terra e às gentes que conheci.

Foram os seus antepassados que lançaram a rede pela primeira vez e construíram as primeiras barracas. Povoaram dunas e deram vida ao local. Enfrentaram a fúria do primeiro mar. Afinal, eles começaram tudo e não encontraram nada.

Muito do que senti, ainda sinto, está plasmado em três livros editados sobre o Pedrógão. Um deles, do grande escritor Aquilino Ribeiro, é uma pérola preciosa, uma obra de valor inestimável da literatura portuguesa que todos deveriam ler. A Batalha Sem Fim, assim se designa a obra, deve ser meditada por todos os pedroguenses. Outros dois há que também é de conveniência conhecer e descobrir por dentro. Refiro-me ao da escritora Adelaide Félix, Hora de Instinto e ao escrito pelo autor destas palavras, Praia de Pedrógão: Locais, Gentes e Memórias. Todos farão, para sempre e inequivocamente, parte do património da praia.

Ao longo destes tempos já duráveis, em que convivi de perto com esta terra, pude acompanhar ocasiões de desenvolvimento eufórico, com repercussões futuras irreparáveis, e outras de acabrunhamento e desprezo. Momentos de crescimento anárquico, hoje à vista quando se olha em redor para o edificado descaracterizador do local. Tombaram-se edifícios que podiam preservar a história da terra.

O poder político de diversas personalidades que aqui passavam férias, teve muita influência, nalgumas circunstâncias, quer para o bem quer para o mal. Mas o que mais incomodou quem amava esta terra, foi o desapego do Poder Local em períodos, por vezes longos, acarretando a sua única praia ao atraso social, cultural e económico. Mandatos houve em que se evidenciou um desprezo fatal e outros em que subsistiu um olhar mais atento. Valeram, muitas vezes, as vozes reivindicativas de algumas associações locais, organizações de cidadãos, que não se conformavam com a situação, tais como a Sociedade de Defesa e Propaganda da Praia do Pedrógão e a Associação Cultural e Desportiva da Praia do Pedrógão.

No entanto, toda esta gama de desinteresses fez-se sentir, mormente em tempos mais remotos, no quinhão mais pobre – o Casal Ventoso. Hoje começo a reconhecer mudanças significativas, fazendo-o ombrear com a praia das ditas elites do antigamente.

Possuo um apartamento nessa zona, mais especificamente, na rua João de Barros. Senti a evolução. Neste contexto, tenho de prestar homenagem à nova Associação do Casal Ventoso e a toda a sua direção. Deve-se-lhe algo, quer pelo seu poder reivindicativo, quer pelo seu empreendedorismo e inovação. Obrigado.

ANTÓNIO INÁCIO NOGUEIRA