Testemunhos – Cafés Portugueses, Tertúlias e Tradição

//Testemunhos – Cafés Portugueses, Tertúlias e Tradição

Foi através de Victor Marques, gerente do Café Santa Cruz, que me caiu nas mãos o livro Cafés Portugueses Tertúlias e Tradição, título a fixar, uma edição dos CTT.

Ao folhear a obra, deparei-me com um volume de edição cuidada, pleno de fotografias, umas recentes, outras mais antigas, pertencentes aos anais dos cafés apresentados no volume, memórias que urgia preservar e divulgar. Se não fosse este livro, porventura se perderiam nos arquivos mortos, já desbotados e dispersos pelos baús velhos das instituições em apreço, até que alguém, mais descuidado ou desinteressado do passado, os deitasse borda fora, como acontece em inúmeras circunstâncias semelhantes.

Entremeadas com essas gravuras sobressai uma escrita escorreita, percetiva e acessível a todas as classes culturais. É difícil escrever deste modo, mas não o é para Samuel Alemão, um homem com elevada especialização académica na área que cultiva e pratica: – o jornalismo sério e intenso que já tive oportunidade de apreciar no Público, na Capital, Notícias Sábado e Revista Vinhos. É também diretor d´O Corvo (ocorvo.pt), “sítio que acompanha a actualidade da capital portuguesa desde 2013”.

Redige como eu gostaria de escrever, se tivesse o seu engenho e arte. Escreve sobre 39 cafés, situados ao longo de todo o país, de norte a sul e regiões autónomas, todos eles fazendo parte dos rituais e da lembrança de muitas gerações de portugueses. Trata cada qual expressando a história, a cultura específica, as memórias, os espaços do edificado, o status cultural e social dos seus utentes, as figuras proeminentes que os frequentam ou frequentaram. Um trabalho ciclópico, rigoroso, histórico – sociológico. E posso asseverar o que afirmo, ao ler o que foi escrito sobre a Brasileira de Braga, Majestic Café do Porto, Pastelaria Gomes de Vila Real, a Brasileira do Chiado, o Café Nicola e a Pastelaria Suíça de Lisboa, Café Santa Cruz de Coimbra, e Águias Douro de Estremoz, onde, por várias circunstâncias neles fiz uma peregrinação de vivências. Ao vaguear por todos rememoro tanta gente que me acompanhou, ensinou e compartilhou momentos bons e maus da vida. Ainda retenho os cheiros, os barulhos de cada um, o gosto do café, e a pastelaria de encher o olho que alguns exibiam.

Deixo para o fim tudo o que o meu atual café (o Santa Cruz naturalmente…), me proporciona: espaço de meditação, lugar de leitura, encontro com algumas pessoas de quem gosto, silêncio ou bulício que me despertam todas as manhãs.

Samuel soube reverter para o papel deste livro arrebatador as vivências que foram minhas, e as que foram de muitos outros. Por isto considero esta obra um retrato autêntico de instituições que cunharam, e muitos ainda o fazem, a vida social, cultural e política do país. Tenho pena que alguns estejam hoje agonizantes, fruto da concorrência mascarada e desleal de espaços ditos expressivos (socializadores) da globalização hoje em voga, que não frequento porque me abalam o ânimo…

Samuel Pombo e os CTT desempenham, sem dúvida, o papel de atores concentrais deste livro: um pela idoneidade do discurso, outro pelo apoio que deu à sua publicação.

Mas o seu a seu dono. Victor Marques é, porventura, a figura fulcral deste trabalho. Arrisco mesmo a considerá-lo o mais importante: – pela pesquisa prévia efetuada, pelo projeto inovador que forjou, e pela forma como conseguiu aglutinar as vontades dos proprietários de todos os outros cafés.

A terminar, desafio os meus leitores a visitar este livro – não sairão defraudados.

ANTÓNIO INÁCIO NOGUEIRA