Uma falsa pintura

//Uma falsa pintura

Existe por aí uma pseudo-pintura que se exprime em riscos, borrões, em alucinações preordenadas no vazio e desprovida de qualquer caráter simbólico a traduzir a causalidade de cérebros descebrados.

É um fingimento de certos falsos “pintores” que pensam possuir a liberdade da criação quando a “liberdade” é muito diferente do indeterminismo ou do acaso dos pinta-monos, os que se afirmam artistas com todos os disparates usando átomos descontínuos e sem indagarem, sequer, dos conceitos feitos por os fixistas mais modernos que fixam a liberdade da criação num elementar princípio de beleza e da razão humana.

O evolucionismo nestes “pintores” de quarta categoria ou de nenhuma não passa de matéria inanimada onde o “gosto da beleza”, é uma atitude constrangida a atribuir a estes comparsas da asneira o axioma relativo aos instintos como símbolo particular das reações gongoristas que os próprios não conseguem explicar o monte de asneiras, o desejo obsessivo de aparecer em público com quadros indecifráveis e onde o desenho não existe, perspetivas, espaços, luz/sombra, é um mero preconceito néscio, onde, aliás, falta o estudo, a aprendizagem, os sistemas metodológicos das escolas.

Falta tudo. Sobretudo da escola positivista. Tentam, como recentemente observámos, um resultado pragmático. O poder da mente não funciona nestes caricatos pintores a expor gato por lebre como enxergámos na capital.

Entretanto um público snob, burguês, sem fundamento artístico para ver a beleza rendeu-se a meras sugestões oníricas que não passam de trapalhadas apologéticas que exprimem somente a inquietação de espíritos perturbados pela ridícula vaidade.

A razão humana está ausente nestes meros artesãos da pintura. Não tem a visão do mundo da arte. E a assistência que foi numerosa para contemplar duas mulheres e um homem não encontram, certamente, o enriquecimento da verdadeira arte, da pintura com funda sondagem da alma humana, da “coisa bem feita”, mas é bom aceitar o absurdo como elegância de espírito aplaudindo o disparate…

A burguesia financeira, a burguesia do preciosismo conceptista é que alimenta a paranoia destes auto-rotulados de pintores.

A pintura não é uma mera fotogenia humana. É uma dialética do autor com a obra e, também, um pretexto moralista e mesmo pedagógico. Ou ainda doutrinal.

A arte não é, ou não deve ser, um passatempo ou uma concessão ao regional ou um equívoco folclórico como se nota em tantas escolas improvisadas a ensinar um psicologismo ultrapassado a meninas e a meninos de cariz enroupado aliciados para uma metiér sem vocação.

Ensino, por vezes, errado, sem pedagogia autêntica, sem história de arte, sem criação válida ou humanamente variada.

Exposição que notámos na capital sem estudos que afeta a forma e o conteúdo restando os borrões, os riscos, o vazio como manifestação do espírito destes três concorrentes às esferas misteriosas da psicose da vaidade e até do escândalo para a crítica e para o público que tem a pintura como um dom maravilhoso da beleza, ou seja, “o belo é tudo que agrada à vista”, como afirmou o sábio e santo, Tomás de Aquino.

Depois de um tratamento violento que recebemos em Lisboa, para alívio do mal que nos acompanha, ao contemplar esta exposição de três aprendizes a feiticeiro, ficámos de regresso a Coimbra, que o mais modesto pintor local é sumamente superior a estes três aventureiros que não se miram ao espelho para fixar as fisionomias distorcidas dos seus trabalhos isentos de qualquer ética ou responsabilidade…

Pintura que atua para gozo dos pedantes, dos que afirmam que o hermético e o teratológico, é que é bom.

Se não é uma “pintura” obsoleta e ridícula, nada disso, não obedece aos rigores mais elementares de se conceber e executar arte.

Se não desejamos ver pintura florentina ou tipo Rembrandt, passadiça, digna de museu, também esperávamos mais dignidade nesta “seara”

Os quadros para muitos destes “pintores de domingo” estão pejados de conteúdos indecifráveis ou meros exercícios abstratos.

Há figurantes sem pudor que pintam de todas as formas e feitios, logo que se dê nas vistas pela extravagância, é bom surgir nas galerias de mau gosto a imitar o inadjetivável.

O que nos valeu, como bálsamo foi ouvir Charles Aznavour, no Meo Arena, aos 92 anos cantar as belas e eternas canções francesas, famosas perante um público já entrado na idade e outro mais novo, na sua voz mundialmente inconfundível.

Aplausos imensos de uma plateia cheia para este “monstro” da canção francesa e dos mais famosos de todos os tempos.

Valeu-nos o Charles que continua a escrever e a compor belíssimas canções que chegam ao fundo da alma.

Nem tudo foi mau nesta visita à capital.

MANUEL BONTEMPO