Coimbra e a Cultura

//Coimbra e a Cultura

A cidade morre aos poucos sem nenhuma reflexão da crítica estruturalista ou na anatomia da sua criação literária ou artística, e fecha-se nas obras literárias que vêm de fora e não há o acervo de sugestões imediatas a condizer com “Cidade Património Mundial” como fizeram outras cidades, nomeadamente Guimarães, Cidade da Cultura, numa interpretação erudita e popular.

A cultura está muito molestada pelo poder político regido por um centralismo nefasto.

As artes são votadas ao ostracismo e os fenómenos afetivos ou sensitivos, como realidade substancial e permanente da beleza espiritual, o teatro, a música, a pintura, a escultura, a dança, o próprio cinema não tem a proteção devida pelos valores culturais que transmitem ao espetador.

A cultura neste país não se reveste num sistema vigoroso de educação, de regras e os governantes desconhecem os problemas lógicos morais ou estéticos da cultura, logo, dos artistas, dos educadores, dos inventores. Promove-se neste país a mediocridade.

A cidade de Coimbra, desde Antero Quental a Eça de Queiroz, trouxe à ribalta a “Ordem do conhecimento”, a “Questão Coimbrã”, que foi uma lufada de ar fresco na cultura portuguesa.

Coimbra foi o centro de todo o conhecimento. E ainda hoje tem a semente destinada a manifestar e a preservar a dimensão de Antero de Quental e dos seus ilustres correligionários.

Ficaram célebres as disputas literárias entre Coimbra e Lisboa.

E vamos enxergando o homem artista, o homem escritor, o homem cronista, o homem investigador a criar as suas próprias formas, inventando, como um grito de revolta. Há ainda um anseio de liberdade criativa. E este anseio vem de longe da poesia anteriana, do seu pensamento, ou como Leonardo da Vinci ao afirmar que a “Arte é coisa mental” ou que afirmava ainda mais longe no tempo Horácio “A arte ou a poesia tem todos os vocábulos culturais”.

Coimbra, por vezes, vive ensimesmada mas, por outro lado, surgem homens de barba rija, ou seja, a evolução da ideia moral de responsabilidade em escritores talentosos, que remam contra a maré.

É como luminosa constelação com livros com estruturas definidas cujas leituras enlevam o espírito e despertam a mente em António Arnaut, António Vilhena, Paulo Ilharco, Joana Vitorino, António Inácio Nogueira, António Augusto Menano, João Carolo, Damásio Monteiro, vivos, e Teles Marques, Fernando Namora, João Mendes Ferreira, e outros falecidos, não esquecendo o invulgar Miguel Torga, a coluna da literatura de Coimbra e do país, uma referência ilustre que no seu tempo merecia o Prémio Nobel, mas razões estranhas o seu nome discutido mas outro Saramago foi escolhido, embora merecido.

Coimbra no fundo continua a mostrar a sua valia cultural e artística.

Há escritores de enorme prestígio e artistas de fama ibérica e europeia, embora a morte tivesse levado este ano cinco pintores para a outra margem.

Afinal há criação literária de enorme valor e artes plásticas com prémios obtidos no estrangeiro.

Coimbra é terra de criatividade nas letras e nas artes.

Há por vezes, uma paragem para refletir. O que se compreende.

MANUEL BONTEMPO