Os Poetas do Penedo

//Os Poetas do Penedo

Aqui me detenho neste recanto da poesia, onde as pedras parecem chorar as palavras dos homens que por aqui passaram, aqueles que declamaram Coimbra nos versos que aqui gravaram em tons de uma saudade estudantil. O silêncio e a paisagem deste retiro enchem a alma de qualquer ser que ame Coimbra, conquista qualquer indivíduo que se identifique com a alegoria do romantismo. Património esboçado pela natureza, a partir de um aglomerado rochoso no qual se foi entalhando este miradouro único, dos mais belos e característicos dos amores de Coimbra. Um refúgio esculpido de poesia, palavras de louvor académico, melancólico, querendo aqueles que aqui deixaram os seus versos provar a aliança entre a sua alma e a cidade que os acolheu.

Encontro aqui uma natureza disfarçada, o monte das oliveiras, o berço das águas correntes que enaltecem a pureza dos amores. Todo este cenário reflete a natureza tão querida dos poetas. Os versos parecem pairar neste outeiro como me passassem as estrofes pelas mãos, como pedindo que as agarre e mergulhe neste mar de poesia. Desdobrando o olhar é de louvar o alcance de um retrato tão cheio, saboreando através da visão um pedaço da cidade, as águas do Mondego e os laranjais que as ladeiam, a Lapa onde se ergueram sentimentos tão semelhantes e as serras ao longe como um horizonte verde esperançoso.

Os pardais são hoje os cantores deste lugar, cantores de um fado eterno. Velhos os tempos em que por aqui soavam as vozes trajadas de negro e o trinar das cordas de uma guitarra ou de uma viola. Hoje a melodia de uma serenata está entregue ao som da água corrente e dos ventos que vão tocando estas árvores que já se esqueceram da idade que têm. O amor anda de mãos dadas à saudade neste ponto recôndito, lembrando as lágrimas de D. Pedro que aqui vinha chorar junto da “Pedra dos Ventos” a perda da sua amada Inês.

Alguns bustos se erguem por esta alameda, mas são muitos os nomes que se referem aqui. São muitos os poetas deste Penedo, alguns conhecidos, outros que nunca se viram, é a eles que dedico estas palavras, aos “Poetas do Penedo”, que escreveram este livro vivo de poesia, esta coletânea imensa dedicada a Coimbra e à academia. Nestas placas se prova a saudade que Coimbra imprime na alma dos seus estudantes, sentimento que transborda a cada partida e que o coração obriga a regressar nem que seja de passagem.

VASCO FRANCISCO (vascormf@sapo.pt)