TESTEMUNHOS. As Palavras e o Tempo.

//TESTEMUNHOS. As Palavras e o Tempo.

Vou anunciar aquele que me inspirou na feitura deste artigo.

O largo Trindade Coelho, em Lisboa, ostenta a estátua de um clérigo jesuíta, Padre António Vieira (de todos conhecido pelo seu Sermão de Santo António aos Peixes). Nasceu na capital portuguesa em 1608 e faleceu na Baía, Brasil, em 1697. Foi uma das maiores personalidades do pensamento português: filósofo, escritor e orador privilegiado. Destacou-se como missionário em terras brasileiras, onde foi um ativista na defesa dos direitos humanos, embora alguns hoje o considerem um “esclavagista selectivo”.

Possuía a convicção messiânica do Quinto Império, sonho maior do que uma Nação. A fé de que a morte continha em si a ressurreição. O sonhado Império da verdade resplandecente de paz e harmonia.

É considerado um dos melhores amantes de língua portuguesa de todos os tempos, de acordo com a esmagadora maioria dos entendidos, e um exímio pregador. Vieira foi um homem de ação, por isso, distinguia bem o “semeador do que semeia”, o “pregador do que prega”. Argumentava Vieira: “O semeador e o pregador é nome”, (…) “o que semeia e o que prega é acção; e as acções são as que dão ser ao pregador, (…) palavras sem obra são tiros sem bala, (…) para falar ao vento BASTAM PALAVRAS.

Para ele, o que se dizia tinha de ter repercussão prática no terreno. Leiam-no e aprendam com o Padre, políticos deste país, Não se bastem só em vocábulos e promessas!… Quão actuais estão as palavras sábias do jesuíta.

Há outra frase eloquente, de entre muitas, muitas outras, plasmadas nas pregações do Padre António Vieira «consubstanciadoras» do título que atribuí a este artigo. Dão-lhe voz e substância. Vieira proferia palavras de uma sonoridade admirável, com recursos retóricos sábios. Degustem-na, então, e retirem dela a sabedoria da vida. Apreciem-na e constatem aí o vínculo entre o ontem, o hoje e o amanhã.

Se no passado se vê o futuro, e no futuro se vê o passado, segue-se que no passado e no futuro se vê o presente, porque o presente é futuro do passado, e o mesmo presente é o passado do futuro”. (Pe. António Vieira, Sermão de Quarta Feira de Cinza, pregado em Roma, na Igreja de S. António dos Portugueses, no ano de 1672.)

Admirável! Não se estranha que Fernando Pessoa apelidasse Vieira de imperador da língua portuguesa.

As palavras do século XVII, ditas por quem “semeia e prega”, permanecem atuais. Não fazem sentido, para quem só as considera parcas memórias desprovidas de ensinamentos. Para todos os que só se preenchem nas PALAVRAS.

ANTÓNIO INÁCIO NOGUEIRA