Quando a música fala mais alto

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Vieram do Louriçal e apoteoticamente encheram de música a Baixa de Coimbra.

Sempre tive um grande apreço pelos músicos de rua e sempre me questiono quando os vejo, vindos das mais longínquas partes do mundo, a falarem a mesma linguagem universal que lhes sai dos instrumentos. Neste domingo, porém, para além de me questionar, emocionei-me e emocionei-me à medida que o som de dois acordeões enchiam o Largo da Portagem de uma forma tão agradável e cativante que criavam enlevo no espírito das centenas de pessoas que por ali se cruzavam. Eram a Guida de 16 anos e a Mariana de 17 quem os tocava, sentadas em improvisados bancos e com um letreiro à sua frente escrito à mão, a pedirem ajuda para custear a “viagem de curso a Amesterdão”.

Vieram do Louriçal e apoteoticamente encheram de música a Baixa de Coimbra, diversificada, mas muita, muita mesmo e sempre por demais aplaudida a nossa, a tradicional portuguesa, sem partituras à frente, mas de forma tão primorosa na execução e tão sequencial que quisemos saber como era: “Dizemos o nome uma à outra da que vamos tocar e fazemos sinal quando é para terminar”. De uma simpatia contagiante elas contaram que são alunas do 11.º e 12.º anos do Instituto D. João V no Louriçal, de onde partirá a viagem, que o ensino de música e instrumental se deu ali, na Escola Big’s School e que desde há três anos fazem parte da tocata do Grupo Folclórico e Etnográfico do Louriçal com traje domingueiro.

Como é bom sentir esta partilha! Chegaram pela manhã, “estava muito frio”, rumaram viradas a Santa Cruz e de tarde escolheram ficar debaixo da janela que foi de Miguel Torga. O que não teria dito este se tivesse presenciado a iniciativa destas duas jovens e quanto não teria ele valorizado o apelativo reportório que diz de nós portugueses e que elas de improviso iam tocando. “Venham mais vezes”, “Não nos cansamos de vos ouvir”, “Vocês são diferentes” – eram expressões ali ditas, quando mais uma moeda caía na caixa do acordeão. Quem passava, parava, e as pessoas que enchiam as esplanadas estavam grudadas ao que ouviam e como ouviam. E foi mesmo a vez do nosso querido mestre, o Professor José Amado Mendes, que igualmente ali passava se lhes dirigir, saudando-as, dando-lhes os parabéns e lembrando-lhes quão importante era elas levarem os seus acordeões aquando da viagem a Amesterdão e fazerem aquilo que ali estavam a fazer. – E o peso no avião? – havia de referir uma delas.

Desta vez, o apelo é meu: à Câmara de Pombal, às autarquias e às instituições, que têm motivos para se sentirem felizes com esta representação. Os acordeões têm que acompanhar o grupo, para que a Guida e a Mariana toquem lá, como o fizeram aqui. E enquanto isso, que os colegas distribuam desdobráveis e demais informação, pois é a nossa cultura a voar e o mostrar lá fora o que é o Louriçal, o que é Pombal, o que são as terras e as gentes de Sicó! E a viagem vai ser inesquecível!

ANTÓNIO CASTELO BRANCO