TESTEMUNHOS. A Perpetuação da «Cunha»?

//TESTEMUNHOS. A Perpetuação da «Cunha»?

Nos meus tempos de menino e moço fui acostumado a observar, como era timbre na altura, o trabalho criativo e manual desenvolvido nas aldeias onde nasceram os meus pais, onde viviam os meus avós, lá para as bandas da Guarda e da Serra da Estrela. Terras de trabalho duro e, por vezes, nostálgico, em que se faziam coisas com as mãos. Os mestres pedreiros, carpinteiros, ferreiros, etc., tinham os seus utensílios de trabalho. Foi neste ambiente que comecei a ouvir falar em «cunha» ou calço. Mas o que era, então, uma «cunha»? Peça de ferro ou madeira que ia adelgaçando até terminar em corte para rachar lenha, fender pedras, ou nivelar objetos que não assentavam por igual.

Só mais tarde, já mais homem, ouvi falar no seu sentido figurativo que os dicionários Houaiss, Priberam ou da Língua Portuguesa Contemporânea da Academia das Ciências de Lisboa, expõem de diversas formas:

  • Pessoa influente que pede em favor de outra com empenho.

  • Empenho ou recomendação de pessoa importante ou influente.

  • Recomendação, pedido especial, feito por alguém a favor de uma outra pessoa.

Na cidade da Guarda, onde vivi enquanto jovem, cidade periférica, pobre e paroquial, a subserviência pairava permanentemente, e a palavra «cunha», a frase «meter uma cunha», reinava em muitas instituições locais. No exército, professorado, serviços camarários, da previdência social, finanças, administrativos dos tribunais, só para mencionar algumas das mais importantes. Quase sempre para arranjar um trabalhinho ou uma colocação, era importante «meter uma cunha», sendo certo e sabido que, depois, lá vinha a prenda, para pagar o empenho do Senhor Dr., do Senhor Diretor ou do funcionário mais bem colocado para a fazer valer.

Após o 25 de Abril, não me parece que a conquista da liberdade tenha varrido esse cancro português. A sua cultura, aliás, não é exclusiva das altas esferas. A todos os níveis a descobrimos e praticamos; mesmo o cidadão comum tem dificuldades em permanecer livre de mácula.

À sua volta há metáforas e eufemismos, como o «jeitinho» ou «mexer os cordelinhos», nomes ternos para a «cunha», terminados em “inho”, tão típico da língua portuguesa, tal como Tózinho. Dito desta forma, fica a «cunha» metida sem nódoa, perdoável e irrefragável. Esta permuta de finezas está sociologicamente e visceralmente arraigada, fazendo parte da nossa identidade? Então será que «meter uma cunha», é coisa de agora, do antes e do após 25 de Abril?

Em Portugal penso que assomou com o nascimento da Nação e foi-se, ao longo dos séculos, refinando e aprimorando nos tempos e modos de a executar.

Em épocas mais recentes, mas já tão longe, Eça, Almada e muitos outros escritores consagrados dela fizeram caso no decorrer do século XIX. Atente-se em Eça de Queiroz e constate-se quão velha é a instituição «cunha». “Querido leitor”, diz o insigne escritor: “Nunca penses servir o teu país com a tua inteligência, e para isso em estudar, em trabalhar, em pensar! Não estudes, corrompe! Não sejas digno, sê hábil! E, sobretudo, nunca faças um concurso; ou quando o fizeres, em lugar de pôr no papel que está diante de ti o resultado de um ano de trabalho, de estudo, escreve simplesmente: sou influente no círculo tal e não me façam repetir duas vezes!” (art. cit. C. Fiolhais).

E Dantas Rodrigues, num artigo escrito em 2016, corrobora o discurso e adianta: “Os portugueses sempre tiveram uma habilidade muito especial para meter a sua «cunha» na esfera pública, até para conseguirem uma consulta médica. Aquele inegável jeitinho para a pedinchice, aquela arte única para a conversa fiada, é-lhes transversal e ninguém parece ficar incomodado com isso. Ou não fosse tão genuinamente nosso aquele velho manhoso e popular aforismo de que «quem não chora não mama.»”.

E os políticos? Deixamo-los de fora? Estavam a passar incólumes e despercebidos, numa altura em que tantos julgamentos decorrem por troca de favores, corrupção, eu sei lá… Senhores do poder, muitos tornam-se amigos de figuras a quem não se pode negar um favor. Aquele empresário… aquele, aquele, aquele… Afinal têm sempre que solucionar um pedido de amigo, não é verdade? Vá lá de fomentar o clientelismo, considerando que é sempre bom para o país! E lá vão vogando, muitos, de «cunha» em «cunha», desde a mais pequena que é arranjar um emprego ao filho do amigo, até à promoção de acordos que protegem outro amigo, ou colocar a empresa de ainda outro amigo a ganhar concursos, outrora públicos, hoje quantas vezes decididos por ajuste direto. Sempre benfazejos para Portugal!

Quem se pode gabar, em Portugal, de nunca ter metido ou recebido uma «cunha»? Tu aí, tu além e aquém, e eu também. Vá, afundemos todos a mão na consciência. O que nos diz ela? Pois, será que vivemos no país da «cunha» ou tudo não passa de fantasia minha? Respondam-me, por favor.

ANTÓNIO INÁCIO NOGUEIRA