Turismofobia

//Turismofobia

Que cidades queremos? Que qualidade de vida queremos ter nas nossas cidades? Em que casas vivemos? Em que casas gostaríamos de viver?…? …? …? Estas perguntas são provocadas pelo que se passa com a habitação em demasiadas cidades espanholas (e começa a passar-se em mais do que uma cidade portuguesa): preços a aumentarem descontroladamente e cada vez mais pessoas a viver em quartos (sem poderem alimentar o sonho de um dia terem a sua casa).

Em Barcelona, Madrid e outras cidades do país vizinho, os arrendamentos atingiram os valores mais elevados dos últimos dez anos. Em Madrid, com uma ocupação média de 15 a 18 noites por mês, os proprietários de apartamentos nas melhores zonas da cidade têm o mesmo rendimento mensal alcançado com um arrendamento de longa duração. Em Barcelona apenas são necessárias entre 12 e 15 noites de arrendamento por mês para o mesmo acontecer.

O turismo está a transformar as nossas cidades. Reconheço que algumas dessas transformações são muito positivas e também reconheço facilmente a importância deste setor de atividade para a economia das nossas cidades (e do nosso país). Estou certa, no entanto, que este é o momento perfeito para pensarmos sobre o que queremos para o futuro das nossas cidades. (Só deste modo podemos evitar alguns erros graves cometidos por outros). Está nas mãos de todos nós (habitantes das cidades, autarcas e governo) garantir que o turismo é algo bom. Temos todos a responsabilidade de assegurar que o turismo não contribuirá para a desumanização das nossas cidades. O bom turismo tem que ser planeado a pensar em quem habita as nossas cidades e se isso for bem feito quem nos visita também será feliz!!! O bom turismo…

Odio Barcelona” (Odeio Barcelona) é um livro muito interessante, publicado em 2008, composto por 12 pequenos ensaios onde os seus autores refletem sobre as importantes mudanças que Barcelona sofreu no período pós-jogos olímpicos de 1992. Receio que hoje os seus autores tenham saudades do que odiaram naquela altura porque a “nossa” querida Barcelona está (ainda mais) transformada num resort turístico. Infelizmente a cidade perdeu há muito tempo a sua identidade, como facilmente se confirma com um simples passeio nas Ramblas: ali encontramos paquistaneses a venderem “sombreros mexicanos” fabricados no Vietname. Na cidade são muitas as pessoas que se queixam por os turistas terem cada vez mais pressa e gastarem menos dinheiro: fazem fotografias a postais de 0,50 euros com iPhones de 1000 euros. O barulho das malas dos turistas, no seu constante corrupio, é a irritante nova banda sonora da cidade. O “monocultivo turístico” estará a provocar que Barcelona morra de êxito?!

O modelo de turismo de Barcelona (que se começa também a sentir em Lisboa) altera os hábitos de vida de quem habita a cidade, contribui para o colapso de serviços e infraestruturas e provoca uma subida exorbitante nos preços do alojamento, comércio e serviços, expulsando muitos daqueles que amam viver na (sua) cidade. Na capital da Catalunha sente-se a saudade do turismo-amável com o qual a cidade convivia com prazer. Cidades como Barcelona e Lisboa vivem um grande desafio: combinar as vantagens da sua atividade turística com o direito de quem nelas vive de desfrutar da sua história, da sua personalidade e de sentir a cidade como sua.

Tenho medo daquela visão do turismo como a “indústria” que converte tudo o que toca num recurso, que explora de maneira intensiva e demasiadas vezes destrutiva… que cria uma riqueza que empobrece! Tenho medo de cidades que não acolhem e expulsam. Tenho medo de cidades que se transformam em “cidades de passagem” e, nos piores casos, em “cidades de saída”. Uma cidade só é rica se for uma cidade que permite chegar e não apenas circular!!!

muito em breve irei viver para Podentes porque começo a manifestar preocupantes sintomas de turismofobia.

CLARA LUXO CORREIA