DESAPORTUGUESAMENTOZITOS DOS NOSSOS CARNAVALITOS

//DESAPORTUGUESAMENTOZITOS DOS NOSSOS CARNAVALITOS

Tenho que começar por desejar aos nossos leitores foliões um bom tempo de Carnaval. De hoje até terça próxima, à noite, há diversos folguedos e muitos foliões de norte a sul. E na Madeira. Aliás, tudo aponta para que os escravos e trabalhadores madeirenses do comércio do açúcar tenham levado para o Brasil os festejos do Carnaval. Naquele país irmão foi criada no século XX uma grande Indústria do Carnaval que se repercute por todo o mundo, em particular pelos média, e de tal forma que já somos nós, portugueses, quem agora vai imitando, nalguns sítios, o Carnaval à Moda do Brasil que se tornou um Carnavalão. E é perante esta moda e influência brasileiras, em detrimento do nosso tradicional Carnaval, que já andamos por aí em DESAPORTUGUESAMENTOZITOS DOS NOSSOS CARNAVALITOS – tanta letra em apenas quatro palavras, já viram? Até parece uma partida de Carnaval. E assim quase esquecemos quão típicos são, por exemplo, o Carnaval dos Cús em Cabanas de Viriato, os Bailes de Máscaras e Fantasias, as Caqueiradas, os Desfiles de Mascarados até com Cabeçudos e… Matrafonas (a inversão do género) em Torres Vedras e outros que ainda vão dando para as encomendas e para terem o rótulo de MADE IN PORTUGAL. Por mim não concordo que com tanto frio e alguma chuva andem em desfile nos nossos sambódromos à la minuta, meninas em fato de banho integrando as nossas brasilodependentes escolas de samba. A influência italiana desenhou um Carnaval moderno na Europa; as Procissões e Festas marcaram a Idade Média depois de estas celebrações terem ocorrido ainda na Antiguidade como festa do adeus à carne antes do jejum (Quaresma) ou como homenagem à deusa Ísis com desfiles de mascarados a que mais tarde se juntaram os carros alegóricos. O Carnaval é também a celebração da fertilidade e o expulsar do espírito do inverno. Na atualidade, em cada terra os usos próprios e as práticas carnavalescas, mesmo com as naturais evoluções e adaptações temporais, deviam ser de acordo com as CIRCUNSTÂNCIAS e a tradição local.

Isto de CARNE VAI (CARNAVAL) até é giro no Brasil – e com o calor do Brasil – ao ser assinalada ali a época com o frenético rufar dos tambores para o samba e muitas e elegantíssimas meninas a exibirem a sua bem delineada carne, do que sou a favor e que não se vá, para que fique bem claro; às vezes a transpirarem perante a temperatura elevada que se faz sentir. Agora, por Portugal, o CARNAVAL, em tempo frio, é mais propício a MASCARADOS bem agasalhados, TRANSGRESSÕES, INVERSÃO DE PAPÉIS SOCIAIS e CRÍTICA SOCIAL, algo que nos tempos atuais até é oportuno porque não faltam motivos para crítica. Tudo isto seria mais genuíno em vez do samba e das escolas de samba que estamos a importar. Porém nos nossos CARNAVALITOS bailarinas descascadas ao ritmo do samba e a tremelicarem de frio, ui, ui, ui, que grandes arrepios! E às vezes alguns municípios, provavelmente, a gastarem dinheiro neste desaportuguesamento das nossas tradições carnavalescas. E reparem que a Sociedade Portuguesa nem sequer se despe de… PRECONCEITOS!!!

RÁDIO DE PROXIMIDADE. RADIOAMADORISMO e LEMBRAR FILIPINO MARTINS

Passam cerca de três meses sobre o desaparecimento de FILIPINO DA SILVA MARTINS. Trabalhou na ACIC – Associação Comercial e Industrial de Coimbra; foi personalidade em foco na organização da saudosa e prestigiada FEIRA COMERCIAL E INDUSTRIAL DA REGIÃO DE COIMBRA – CIC, que se realizava na Solum em frente à Escola Secundária Infanta Dona Maria. FILIPINO MARTINS foi ainda um emérito e ativo RADIOAMADOR e dinamizou tertúlias e atividades internacionais neste âmbito. Entrevistei-o algumas vezes e guardo a imagem de um homem bom, simpático e a fazer amigos com facilidade. E, inquestionavelmente, a viver com intensidade a paixão pelo radioamadorismo. Hoje, para além de evocar FILIPINO MARTINS e de pedir aos conimbricenses para não o esquecerem, venho relatar uma importante colaboração que nos deu a nível pessoal/familiar e informativo aquando do grande sismo que ocorreu em ANGRA DO HEROÍSMO na Ilha Terceira em 1 de janeiro de 1980 e em todo o grupo central açoriano causando cerca de oitenta mortos e vinte mil desalojados. Dois primos, jovens médicos, a fazerem o estágio naquela ilha motivaram a ansiedade de pretendermos saber o que se passava, mas as comunicações não são como as de hoje (a ilha ficou sem eletricidade e sem comunicações) e até ao nível da então RDP tivemos dificuldades em colher informação atual e rigorosa. Foi FILIPINO MARTINS quem, em Coimbra, no seu posto de radioamador, através de contactos com um radioamador da Terceira que julgo estaria nas Lajes nos foi fornecendo, do meio da tarde até ao final desse angustiado dia, NOTÍCIAS DA SITUAÇÃO TRÁGICA QUE PORTUGAL VIVIA NOS AÇORES. E a maioria dessa informação veio a ser utilizada pelos serviços informativos nacionais e internacionais da RDP como uma das fontes. FILIPINO MARTINS legendou para mim, nesse dia, a importância do radioamadorismo. Nos últimos incêndios os radioamadores e a própria rádio pública podiam, eventualmente, ter desempenhado um papel mais ativo na informação “ao segundo” das populações. Considero ainda oportuno, neste texto, opinar que a Rádio e a Televisão de Serviço Público necessitam valorizar as suas Delegações, Centros Regionais e Locais de Informação (correspondentes locais) mesmo que nada aconteça até a um dia… em que o pior possa vir a acontecer. NAS CATÁSTROFES A RÁDIO É MUITO IMPORTANTE: É FUNDAMENTAL pela sua MOBILIDADE, FACILIDADE TÉCNICA e PROXIMIDADE. E convém ter sempre em casa um rádio de pilhas.

SANSÃO COELHO (sansaocoelho@sapo.pt)