NOTA DE RODAPÉ

//NOTA DE RODAPÉ

PIRILAMPOS AZUIS E AMARELOS

Pelos caminhos voam pirilampos gigantes. De duas cores, azuis e amarelos, contrariam a lei natural que rege a espécie: vivem todos os dias, todas as horas e todos os minutos, num fluxo contínuo de agitação. Não dormem e têm uma missão a cumprir: nas cidades, vilas ou aldeias, onde o sofrimento, dor e angústia tornam a sua presença mais do que necessária – urgente e decisiva.

Foram os humanos que criaram a espécie. Depois de abdicarem, pela província, da saúde e apoio social, conduzindo os técnicos de referência para os grandes centros, abriram, em nome do apertar do cinto, uma enorme cratera: quem acudiria aos desfavorecidos e desprotegidos? E assim nasceu a força de elite: os pirilampos azuis e amarelos.

É à noite que o lufa lufa dos pirilampos azuis e amarelos ganha dimensões épicas: durante o frio intenso, no inverno, ou na época das noites tropicais, é frenética a sua atividade, não cessando de transportar seres humanos em extremas dificuldades para unidades alveolares algures entre o céu e o inferno.

Os primeiros a avançarem para a cena de catástrofe são autênticos heróis, arriscando em nome do outro a sua própria vida: em velocidades vertiginosas vencem o caos do trânsito citadino, diminuem com perícia a distância face a lugares remotos, usam de sirenes e luzes para se fazerem anunciar.

Há quem lhes chame INEM. Para mim, serão sempre pirilampos: de vida quando se acendem, de morte quando se apagam.

JOÃO PINHO