Alcunhas que acompanham gerações

//Alcunhas que acompanham gerações

A aposição de alcunhas às pessoas está arreigada à nossa forma de estar e conviver e elas surgem por via de tantas e tão inesperadas circunstâncias que muitas vezes, sem o visado dar por isso, já é conhecido e chamado por outro nome, nome que em muitos casos chega a identificar famílias através dos tempos. É o caso por exemplo dos Requintas, proveniência que remonta à fundação da Filarmónica de Covões em 1868, dado que houve por essa altura um músico que tocava requinta e que por via dela passou a ser chamado Toino Requinta, tal como os filhos, netos, bisnetos, tetranetos, sobrinhos, primos, toda esta gente, 150 anos depois, ainda é identificada com a referência “Requinta”!

Outras vezes a alcunha acompanhava logo a criança mal nascia: era o “Menino de Uma Noite” que veio ao mundo no dia do casamento e assim passou a ser chamado, era o “Manuel Serôdio” porque apareceu já fora de tempo, ou noutras circunstâncias a “Rosa das Arrãs” porque vivia de perto com as rãs lá na lagoa. Outras razões houve que levaram as pessoas da terra a chamarem pela tia Maria das Pernas Gordas, pela Maria Toca os Bois, pela Maria do Manuel Jequim Toino Zé, pelo tio Manel Bichanas, pelo Homem das Duas e das Três Mulheres, pelo Bebe Auga, pelo António da Senhoras, pelo Manuel Bichinha, …

No decurso desta aliciante temática, que ainda por cima diz da minha Gândara, não resisto a falar da história que me fez chegar à alcunha de enjeitada. Ela, a história, prende-se com um registo do batismo a que tive acesso e que foi ministrado solenemente em Cantanhede a 4 de maio de 1842 a Camila, Camila Maria, filha de pais incógnitos, que foi achada na manhã do dia 30 de abril à porta das casas do regedor da Paróquia desta vila José Ferreira, e foi batizada particularmente naquela data por se achar fraquinha, tendo sido padrinhos o administrador deste concelho Joaquim de Magalhães Coutinho e D. Maria, filha de Matias de Carvalho dali natural e à época professor da Universidade de Coimbra. Segui-lhe o rasto. Camila não era por aqui um nome vulgar e outros, como este pouco usuais, só eram dados aos expostos por solicitação escrita de quem os abandonava, como forma de amanhã mais facilmente os poderem encontrar, caso viessem a procurá-los, uma diferente maneira de aquela em que eram deixados com alguns objectos pessoais identificativos, pedindo-se expressamente que dessem determinado nome à criança, pois havia a intenção de a reaver no futuro, o que raramente acontecia. Por vezes, depois de serem recolhidos e então encontradas as progenitoras, era-lhes atribuída uma verba pela instituição/entidade responsável para os cuidar. Com Camila, nenhuma destas situações terá acontecido, até porque, ao invés de ter sido colocada na roda que existiu em Cantanhede até 1870, foi deixada “à porta das casas do regedor” (…). E questiono: – terá sido por acaso que ali foi parar e que teve como padrinhos aquelas figuras importantes do concelho?

São meras suposições que alvitro e me levam a conjeturar a hipótese desta menina não ser oriunda de um baixo extrato social, mas de alguém que se procurava ocultar e proteger. E de tal modo, que no decurso das pesquisas que levei a cabo, me foi transmitido um testemunho oral da família que dela provém, relatando que muitas vezes, senhoras em charretes iam visitar Camila que vivia na Chorosa, em casa de Manuel dos Santos da Ana e de Maria da Conceição, a quem tinha sido entregue para ser cuidada e onde viria a crescer. Segundo os registos, tendo ficado viúva do primeiro casamento, voltou a casar de novo aos 28 anos na igreja de Febres com Manuel da Cruz, de Balsas, lavrador, e que se dizia também ourives, a que hoje chamaríamos ambulante (?), tendo sido para aqui que ela se mudou e onde teve seis filhos, cinco rapazes e uma rapariga de nome Maria. No assento de batismo desta, o pai é ali perfeitamente identificado quanto às suas origens, enquanto em referência à família materna é dito “de avós incógnitos e ella enjeitada” – ao referir-se à mãe. Era pois com esse estigma que Camila era conhecida e chamada, passando igualmente aquela filha a ser a Maria Enjeitada, e bem assim as mulheres que vieram a descender daquela progenitora comum ou através dela houvesse alguma ligação afetiva, como foi o caso de uma sobrinha de nome Palmira, uma rapariga um pouco “néscia”, dizia-se, que lhe deixaram lá em casa e com quem por caridade sempre viveu, ou não fosse ela uma mulher ligada à igreja, que fazia terços para vender e rezava por conta de quem tinha promessas a pagar. Este o testemunho de uma sua afilhada de 83 anos de nome Domitília que ainda ali vive, em Balsas, ao apontar para o que resta da chaminé da madrinha falecida em 1958, não se esquecendo de referir, que também aquela menina “simples” era chamada de Palmira Enjeitada.

Coisas que o tempo guarda!

ANTÓNIO CASTELO BRANCO