Nota de Rodapé

//Nota de Rodapé

UMA AMIGA QUE PARTIU

A vida transmite-nos a ilusão da eternidade. Só em face da doença grave e na antecâmara da morte admitimos o fim. Porém, somos o único ser vivo na terra que tem consciência da sua própria finitude, que desejamos seja o mais longa possível e com qualidade de vida.

Ela, a senhora dona morte, como lhe chama o ensaísta Eduardo Lourenço, não poupa idades, géneros ou classes sociais. É mais cega do que certa justiça e mais eficaz que qualquer raio que caia dos céus.

Aos poucos, a minha geração tem vindo a ser atingida pelo flagelo das doenças graves, súbitas e, em último caso, pela morte. Já perdi alguns amigos, sei que outros têm sofrido bastante e à medida que os anos passam, a realidade vai-se alterando, para pior. É uma roda que não pára: uns saem, outros entram. Imparável. Vou metendo os pés de molho, não posso fingir ignorância…

No domingo, partiu uma amiga dos tempos de liceu, levada por uma doença oncológica. Era uma força da natureza, bem disposta, interventiva, mãe e esposa dedicada. Falámos pela última vez na sequência da política autárquica, em que ambos nos envolvemos – levados pelo mesmo amor às raízes e às terras que nos viram nascer e crescer. Já não estava bem nessa altura, mas mantinha a fé e esperança na cura, dizia-me, com a voz embargada e os olhos rasos d’água.

O estado agravou-se, não sabia o quanto, e tudo se precipitou. Não tive oportunidade de me despedir de ti, mas vou guardar cá dentro os tempos em que fomos reguilas, jovens, inconscientes e saudáveis, quando nos idos anos 80 nos procurámos compreender e orientar num mundo complexo e perigoso.

Sei que onde estiveres não existirá tristeza. Sei que levas todos no coração, em especial as tuas queridas filhas e marido. Até sempre e que tenhas na eternidade a paz que a terra te negou.

JOÃO PINHO