Tertuliar

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«Trocar as pantufas por umas sandálias e fazer-nos à estrada», palavras de José Tolentino Mendonça que hoje servem de mote à nossa tertúlia.

À volta da mesa, a tertuliar em Dia Internacional do Livro, a conversa leva-nos naturalmente a Eça de Queiroz e ao arroz doce, a Afonso Duarte e às enguias, a Jaime Cortesão e ao bolo de Ançã, a Agustina Bessa-Luís e ao Jardim Botânico da Universidade de Coimbra, a Miguel Torga e, sim!, falamos e saboreamos na palavra escrita Trás-os-Montes, Miranda do Corvo, Coja, Tentúgal, … – e então alguém lança para a mesa: é a água que nos dá identidade!

Mondego das regatas, das barcas, do “Basófias”, do sal, do arroz, da Serra da Estrela … e fala-se de aguadeiras – um passado que chegou à contemporaneidade, fruto de um trabalho de recolha e recriação cuidada que tem vindo a ser desenvolvido por Grupos Folclóricos e Etnográficos, e que nos surpreende pelas histórias contadas, histórias de portugalidade e… alguém recorda um dos pregões recuperado em boa hora: “Água fresca regalada, Água de Coimbra”.

Água fonte de vida, elo de ligação e fator identitário de um território multidiversificado: do interior ao litoral, vivemos património natural e edificado, tradição e contemporaneidade (música, teatro, dança, gastronomia, vinhos, desporto, agricultura, inovação…), experienciamos uma Rede de Castelos e Muralhas, de Aldeias do Xisto, uma Rota da Romanização, Aldeias de Montanha… – alguém entretanto lembra a fábrica de neve, os poços e os neveiros da Serra da Lousã (Coentral, Castanheira de Pêra) e fica no ar o desafio de em breve nos “fazer-mos à estrada”.

É de novo a água a retomar a centralidade que nos leva a descalçar as pantufas e caminhar pelos campos do Mondego na companhia do nosso Miguel Torga. Sim, temos um território verdadeiramente encantado, repleto de histórias a partilhar.

À mesa há sempre lugar para mais um e assim as palavras tornam-se convite na canção de José Afonso: “Amigo/ Maior que o pensamento/ Por essa estrada amigo vem/ Por essa estrada amigo vem/ Não percas tempo que o vento/ É meu amigo também/ Não percas tempo que o vento/ É meu amigo também// Em terras/ Em todas as fronteiras/ Seja bem vindo quem vier por bem/ Se alguém houver que não queira/ Trá-lo contigo também// Aqueles/ Aqueles que ficaram/ (Em toda a parte todo o mundo tem)/ Em sonhos me visitaram/ Traz outro amigo também traz um amigo também”.

Hoje, reiterando anteriores desafios – a que sabe o Mondego? – deixamos uma sugestão de leitura: “Viagem a Portugal”, de José Saramago, o nosso Nobel da Literatura (1998).

Tertuliemos.

ALICE LUXO (alice.luxo@gmail.com)