TESTEMUNHOS – Encontro Internacional De Cafés Históricos da Europa: um sucesso

//TESTEMUNHOS – Encontro Internacional De Cafés Históricos da Europa: um sucesso

No dia 20 e 21 de abril realizou-se o Encontro Internacional de Cafés Históricos da Europa sob o lema os Cafés Históricos Como Património Cultural. Foi, em boa hora, uma organização do Café Santa Cruz, com a coadjuvação imprescindível da Associação Europeia dos Cafés Históricos e da congénere Associação Portuguesa de Cafés com História que representam, já, apesar da sua tenra idade, um conjunto de associados considerável.

Assisti a todo o Encontro com atento. Pelo formato organizativo, pela qualidade das intervenções havidas, momentos culturais proporcionados e pontos de convívio criados, considero, este encontro, um ótimo invento.

Realça-se a presença de participantes estrangeiros, ligados à vida destes cafés, de entre eles, pela sua importância no contexto do Encontro, o presidente da Associação Europeia dos Cafés Históricos, facto, a leva a discorrer que a rede institucional começa a ganhar corpo. Os nossos vizinhos espanhóis também estiveram, em número muito significativo, e, com entusiasmo participante. Os portugueses aqui marcaram, expressivamente, comparência, sendo de destacar os que de mais longe vieram, como é o caso dos açorianos.

Reconhece-se o número significativo de entidades locais, nacionais e europeias presentes no evento, ligadas à universidade, autarquias, turismo e cultura. Eram 10, as que tomaram assento, na mesa de abertura do acontecimento. As palavras ditas, mostram disponibilidade e boa vontade para ajudar um património que está, permanentemente, em construção. Aguarde-se.

Ressalta-se a importância da ligação da Semana Cultural da Universidade de Coimbra a esta realização. Óh as Casas, de seu nome, é um título feliz, com substância e significado, e, que muito se alia à casa Café. Nesta circunstancia, dos Cafés Históricos. Na realidade, todos têm em si, pelo que foi dado entender, um pouco da casa património, casa mundo e casa corpo, três dimensões dessa semana cultural, na convicção dos seus responsáveis. Quererá isto denotar que a história das cidades também está nas suas ruas, nas casas, nos cafés, nas estórias, nas tertúlias, embora se saiba que o tempo mudou, e que é preciso tudo adaptar à nova realidade.

Traduz, também, a aliança do antigo e do novo, e, no caso dos Cafés Históricos, a manutenção de uma oferta que possa agradar a todos os públicos.

Nesse enquadramento, contar a longa história e as memórias dos Cafés Históricos participantes, por quem a conhece, donos ou seus representantes, foi ponto significante do evento. Cada qual expressou-as, com entusiasmo. Falou dos espaços do edificado, do status cultural, social e político dos seus utentes, das figuras proeminentes que os frequentam ou frequentaram, dos cheiros, barulhos, o gosto do café, da pastelaria/gastronomia de encher o olho e o estômago que patenteavam ou ainda ostentam. Também do aprendizado que aí se fazia, ou, ainda faz de socialização cultural e política e da sua importância no contexto social da sua cidade, país ou Europa. Tudo isto sempre caldeado com as inovações empreendidas ou a empreender.

Fiquei com a quase certeza de que o «presentismo» que se vive não cabe na ideia de muitos dos participantes. Não é preciso insultar e atacar a memória. Mas qual é o mal do passado? Então! Passado, presente e futuro, sim! Ontem, hoje e amanhã, penso que é o lema que está presente na cabeça das pessoas que fui ouvindo em conversas informais ou nas entrelinhas das apresentações. Conciliar o melhor do passado com o melhor do presente também sobressai.

Valoriza-se o número significativo de pessoas que comunicaram o seu saber feito na teoria refletida ou na prática desenvolvida. Comunicações com interesse.

Como estava encarregado de elaborar as conclusões tentei, em muitas ocasiões, transformar os discursos mais ou menos longos das apresentações, ou frases ditas, em palavras ou conjunto de palavras. Aventurei-me a fazê-lo, utilizando um agrupado de duas ou três palavras síntese. Desta forma se constituiu um acervo, de que me orgulho, hospedando, no seu âmago, a história, memórias e desempenhos dos Cafés Históricos. Foi construído no acontecer do encontro e ao sabor da imaginação do momento.

Apresentam-se os seguintes grupados: café histórico, café com história, café gente, café lugar de pessoas, café casa, café casa da gente, café memória, café história, café cultura, café cidade, café presente e futuro, café de interesse turístico, café rota turística, café socialização, café aprendizagem formal, não formal e informal, café gastronomia, café doçaria, café livraria, livraria café, café comunidade, café património, café espaço tertúlia, café cidadão europeu, café cidadão do mundo, café assento de burgueses, café convivialidade urbana, café arquitectura, café vivencia, café identidade, café aristocrata, café dos futricas, café dos poetas e pensadores, café dos artistas, café fórum, café esfera pública, café mexericos, café gente em movimento, café ilha, café atracção, café invenção, café conspiração, café identidade, café em construção, café animação, café contador de histórias, café divertimento, café gente, café faturação, café solidão, café concerto, café sociabilidade, café memória viva, café empresa, café arte, café museu, café empresa, café monumento nacional. Pegue-se nisto tudo, misture-se bem, sirva-se quente ou frio. Tem o gosto do reunido de todos os Cafés Históricos da Europa.

Devo muito ao Café Histórico Santa Cruz, o meu café, e, também, a outros Cafés Históricos, já que revejo neles um sentimento de enorme reconhecimento, pela oportunidade que me deram de aí achar um cantinho de reflexão solitária ou de aprendizagem partilhada, «tertuliana», fundamentalmente, política, nos meus tempos de jovem-adulto.

A comunicação pública formou-se nos cafés, tanto em Portugal como na Europa, por vezes, à revelia do poder político. Foram fábricas de talentos. Os cafés eram a universidade e a antecâmara da revolução.

Hoje os Cafés Históricos da Europa, ainda detêm o seu lugar, com mérito e merecimento, na sociedade, pese o enquadramento socioeconómico e cultural ser diferente. A sua matriz está viva. Um roteiro por eles e com eles, para conhecer a sua história, talvez nos desse pistas, no que diz respeito à Europa, para analisar as suas contradições, as suas políticas, as suas desigualdades.

O agora dito, foram frases ou ideias enunciadas pelos intervenientes, bebidas em fontes de autores consagrados.

Com eles, humildemente, concordo, porque o vivo e o vivi.

O organizador está de parabéns. Era bom que houvesse muitos encontros destes nas diversas áreas do saber – saber e do saber fazer. Se assim é, muito se deve ao infatigável empreendedor Vítor Marques. Arriscamos a considerá-lo, a figura fulcral e central deste encontro, pela conceção e organização cuidada e empenhada que fez do mesmo, e, pela forma como conseguiu aglutinar as vontades dos proprietários de muitos outros Cafés Históricos, das entidade oficiais diversas e, também, de todos os outros intervenientes.

Parabéns devidos.

ANTÓNIO INÁCIO NOGUEIRA