O homem acomoda-se

//O homem acomoda-se

Deixou de existir o gosto pela conversa que regateia a tirania política, que serviu a umas escassas décadas para uma cultura cívica e mesmo neoclássica, de inspiração pelo coletivo, de gente bem formada claramente comprometida com as formas de luta pela cidade, pela urbe, pelo sítio, pelo país, pelo Homem.

Hoje enxerga-se o ser humano, em regra amolecido ou cheio do hermetismo orgânico, passivo, desinteressado pelos valores cívicos. E deixa, por regra, colocar a “canga” nos seus ombros.

Este procedimento do homem abúlico, desinteressado, afeta os bons propósitos do homem bem intencionado.

Há um processo de instintiva desumanização tão a gosto dos que provocam a desumanização em tudo que é vida racional, benéfica que faz caraterizar o facie de uma terra, duma região, dum país.

Vive-se um mal estar subjetivo – quase terror psicológico – com a onda de crimes diários conotados neste país de utópica brandura com o adultério, o incesto, o parricídio, o perjúrio, a pedofilia, o deicídio, o roubo, o homicídio, a corrupção, o assalto aos idosos, o sequestro e maus tratos, no fundo há neste pseudo-pacato país extrema crueldade!

Há franjas de pobreza mais baixas de toda a Europa. Vejam-se pensões de 200 euros!

Não se aproveita a formação profissional, as mais valias, desempregados numa política que lembra as trevas da Idade Média.

A saúde atravessa determinado desleixo. E está cara e morosa!

O sentido ideológico, humanizado, ganhava expressão de cidadania alegre e produtiva, se os mandatários políticos deixassem tanto de obedecer às erróneas diretrizes do mando cego da Europa…

Não há motivação e o comércio, a indústria, as pequenas empresas, fenecem, e as ruas despovoam-se, a inércia apossa-se dos seres humanos abúlicos, tristes na sequência da embriogenese de outros fenómenos que vão atulhando a nossa sociedade!

Há que dar prioridade ao emprego, à produtividade, aos órgãos de formação que abranja a correlação somato vegetativa do ser humano dando-lhe uma organização de funcionamento rigoroso.

Este governo avançou um pouco mais numa geometria de justiça, ao invés de outros, mas pode – e deve – ser mais justo com os pobres.

Os sem abrigos que foi tema quente nas autárquicas entrou no ostracismo.

Em Coimbra foi tema na oratória de Manuel Machado, Jaime Ramos e outros candidatos. E o que se faz? Nada!

Há muitas mãos a pedir pelas ruas da cidade, pobreza envergonhada e outra que nunca teve um euro para comprar pão.

O Homem vai-se acomodando ao dulce farniente mesmo com fome, sem dinheiro, quanto muito meras migalhas para o pão do dia a dia. Quando há migalhas.

Como não tenho gatos nem cães, todas as manhãs na toma do meu café tenho um a dois comparsas que me fazem companhia por escassos minutos.

Às vezes, raro calhou ser senhoras com fisionomias torturadas…

Somos um país de falsos brandos costumes, desapiedados, egoístas onde os vândalos que roubam, matam, e quase sempre ficam impunes por uma justiça morosa, cara, e os ricaços, roubam e esperam pela prescrição.

No fundo somos, em parte, angustiados ou, talvez, esferas do destino azedo do nascer ao morrer que seria preciso exconjurar toda a opressão, ressentimento, desprezo que os mandatários votam à maioria dos nobres cidadãos deste país.

MANUEL BONTEMPO