D. Pedro e Inês: Amor intemporal

//D. Pedro e Inês: Amor intemporal

O romance trágico de amor entre Pedro e Inês é uma marca de Coimbra. Faz parte da sua História e das suas estórias, tem um território mental e espacial que nos projeta não só para a cidade – Quinta das Lágrimas e Fonte dos Amores, para o desaparecido Paço Real, para Santa Clara – mas também para outras povoações como Cantanhede, Canidelo, Bragança ou Lisboa.

É uma história intemporal, a do amor proibido em tempos medievais, que desafia os cânones e rompe com o estabelecido, que emerge da clandestinidade até se tornar público, oficial e reconhecido. O desafio de amar, contra tudo e contra todos que teve um preço demasiado alto a pagar: a morte da bela Inês, forjada pelo sogro, com apoio daqueles para quem amar tinha limites, designadamente, os condicionamentos sociais, comportamentais e económicos.

No entanto, 663 anos depois do trágico ano de 1355, o romance apresenta-se pleno de atualidade, como o demonstram as estatísticas oficiais de infidelidade, as traições matrimoniais, a crise dos casamentos tradicionais e para toda a vida – violação assustadora e galopante do sacramento do matrimónio.

Quando no passado dia 29 de maio tive oportunidade de participar, como autor do texto, na apresentação da obra «D. Pedro e Inês: História, Lenda e Mito», iniciativa da UF Santa Clara e Castelo Viegas – com apoio da Fundação Inês de Castro, colaboração do artista plástico Victor Costa e apresentação pela Prof.ª Dr.ª Maria José Azevedo Santos – senti-me lisonjeado com aquele momento: perpetuar a minha visão do que fora o romance épico de Coimbra, se bem que limitado a um determinado número de páginas e apelando a espírito de síntese.

Finda a cerimónia e já depois de todos terem partido, descansei o olhar no jardim medieval da Quinta das Lágrimas, imaginando e invejando a coragem de Pedro e Inês em enfrentarem o mundo hostil e fazerem de Coimbra o palco da sua história de amor. E quantos Pedros e Ineses não abundam por aí – questionava-me enquanto caía sobre a Coimbra dos poetas, dos cantores e dos enamorados – o último raio de sol quente de um dia fresco e sombrio, parecido com aquele em que Inês terá sido assassinada apenas por ter a ousadia de amar.

JOÃO PINHO