TESTEMUNHOS. Coimbra entre mitos e desesperança

//TESTEMUNHOS. Coimbra entre mitos e desesperança

Em artigos anteriores tenho feito várias críticas e reparos sobre a nostalgia em torno do desenvolvimento da «minha» Cidade, nos seus diversos aspetos, que não ouso agora repetir. Também da sua «governança» que, ao longo dos tempos, não foi capaz de ajudar a superar a inércia forjada em redor de algumas forças bloqueadoras insistentes em não querer perder o poder no qual se enclausuraram.

É sempre com muita mágoa que o faço.

Coimbra não pode continuar a viver só dos mitos e dos ritos do passado. Não pensem os leitores que pretendo o conhecimento ligado ao poético e ao mágico, esvanecido nesta terra. Eu sei que, quando o simbólico deixa, nas várias versões, de representar na história e na vida uma interpretação de sentido descobrimo-nos a viver num mundo desencantado. Preserve-se e divulgue-se o património rico e diverso, cuide-se do ambiente circundante, importantes para dar força à sua – e nossa –, identidade, mas não se descure o presente, e, releve-se, também, o prospetivo. Para o bem ou para o mal, a composição da realidade já não se explica poeticamente, mas tem sim de ser sujeita ao crivo de uma racionalidade de tipo científico, aquela tida hoje como a única legítima e de futuro. [in Público, José Tolentino Mendonça.]

Esta última vertente tem vindo a faltar na nossa Cidade: por medo de abandonar o passado, por subserviência a outros poderes, inclusive às suas cidades satélites, onde não se impõe, e, com as quais, em determinados aspetos, já não é capaz de competir.

Ao ter-se sumido a exclusividade e a supremacia universitária do passado, em alguns sectores do saber e da investigação, Coimbra perdeu, definitivamente, em número e qualidade, os cérebros que no passado eram quase da sua mestria. Há uma Coimbra subserviente que nada traz de Lisboa, nem quando os governos lhe são de feição política. Assim sendo, resta – lhe desenvolver políticas de arrojo, por a inovação e a imaginação a funcionar, para atrair e acionar novas formas de agir, pensar e fazer frente.

E caros leitores, em cada dia que passa, vejo Coimbra a afastar-se de muitas das cidades que lhe eram referência e às quais sobressaía.

O Instituto Nacional de Estatística divulgou o valor das mercadorias exportadas por cada um dos 308 municípios portugueses até 2017. Percorri a lista, mas Coimbra não constava em situação evidente – por onde andas Coimbra? No designado «top» exportador (mais vendas ao exterior em 2017 em milhões de euros) brilham Braga, Aveiro, Guimarães, numa lista de 20 concelhos. No «top» valor maiores subidas (em milhões de euros entre 2013 e 2017), numa lista de 20 concelhos, encontram-se Braga, Guimarães, Leiria e Aveiro. No «top» dinamismo (maiores subidas em percentagem entre 2013 e 2017), Braga, Tábua, Évora, Nelas. [fonte Expresso / Economia, 9 de junho de 2018].

Mais acrescentar para quê? São muitas DESESPERANÇAS!

Fico, por ora, expectante com a evolução das empresas ligadas às novas tecnologias. Em frente.

ANTÓNIO INÁCIO NOGUEIRA