Entre o Mar e a Serra

//Entre o Mar e a Serra

A noite parece hoje misteriosa. Todo o céu se forrou de negro, no entanto a lua tenta apoderar-se de todo o espelho celeste. Os sinos da torre aqui ao lado quebram um silêncio profundo que apenas o latido dos cães acompanha. Não há chocalhar de rebanho, não há galo que cante ao engano, aqui não se ouve gado. Entrego os meus passos a estas ruas desertas, que são apenas caminhos de vinho por altura das trasfegas, e caminhos de uvas por altura das vindimas. As encostas forram-se de um monocultura abundante, conquistando a estender o olhar por toda esta verdura orientada pelas mãos do homem, expondo as vinhas como de um jardim formal se tratasse. Toda esta verdura nascente de milhares de cepas se contrasta à cor do barro que compõe estes solos, terra pesada e crua, como a vida destas gentes que de Janeiro até às vindimas sente a força maior do sol e da chuva para que o vinho que “rebenta” destas videiras chegue aos quatro cantos do mundo. Falar dos vinhos da Bairrada é referir nétares que começam agora a ser mais valorizados, tentando estas terras igualar o requinte dos franceses perante uma taça de espumante. Perante uma analogia que se pode realmente enunciar, sem dúvida que a região da Bairrada é a “Bordéus Portuguesa”. Os vinhedos são hoje já grande parte merecedores de um ADN francês, sem que a genética portuguesa seja rebaixada, ora não fosse a casta Baga a rainha desta região.

Estas terras Bairradinas oferecem a quem por nelas passa retratos genuínos que caracterizam estas gentes e estas paisagens. É raro aquele que consegue descrever os povos da Bairrada sem que não tenha também de definir as gentes da Gândara. A garra dos gandareses sempre foi uma força incontornável de trabalho entre a safra do mar bravio e a rotina da terra arável. Este povo desde cedo que semeou e se criou na aréola de onde arranca o seu sustento. Ainda hoje é possível observar as suas hortas, os seus milheirais e batatais ao lado de suas casas que se apresentam numa tipicidade única. A Mulher Gandaresa é uma mulher de bondade, figura que não se nega ao trabalho agarrando-o com aquela garra que não se descreve, interpolando-o com ares de reinação e de boa disposição. Com muitas semelhanças se caracterizam as gentes da Bairrada. Homens e mulheres de rostos queimados, corpos sofridos que amam as cepas como que a seiva que nelas corre fosse um pouco do seu sangue. É na azáfama do nascer e do pôr-do-sol que estas gentes se apresentam no seu esplendor em louvor do Vinho que tanto defendem como a sua identidade. As Bairradinas são também elas Mulheres de força e de folia. É desta forma que enuncio esta relação entre as gentes Bairradinas e Gandaresas que sobem e descem os vinhedos partilhando histórias e memórias fazendo-me comungar a paixão pela vinha e pelo vinho junto destas gentes, como de um só povo se tratasse. Ainda há de chegar o dia da adiafa em que juntarei a minha alma de serrano as estes povos, também eles forasteiros, portadores de memórias de alegres romagens ao Senhor da Serra e à Senhora de Vagos.

Um perfume irradia pelas ruas que a penumbra dissemina perfumando todo este lugar. Não se ignora este cheiro requintado que os botões de rosa difamam por essas vinhas adentro, sendo as vinhas embelezadas a cada linha por uma bonita roseira. Nada é por caso ou por argumento de beleza, são indicadoras certeiras que avisam os viticultores da chegada do oídio. Os grilos apoderam-se do silêncio, a luz reflete no casario baixo e esbranquiçado construído em adobe como tradição de uma arquitetura de outros tempos. Pouco se consegue decifrar ao longe, mas quem bem enxerga consegue decifrar os contornos graníticos daquele Caramulo tosco que se estende na imensidão do horizonte serrano. O Buçaco apresenta-se como a serra mais próxima. Daqui se vê o seu cume esguio onde se sustem a “Cruz Alta” e ponteando a verdura ergue-se o seu palácio nos seios daquela serra. A água corre-lhe pelas entranhas até aos pés, transmitindo uma frescura que se estende até ao Luso. Se ao nascente venero as serranias de onde chegam os ventos mais frios, do poente chegam-me os ares marítimos que aqui se misturam formando uma só aragem, um ar salpicado de sal e amornado pela verdura. Assim se definem os ares da Bairrada, desta região pintada por Deus e desenhada pelo Homem, esboçada de vinhedos entre o mar e a serra.

VASCO FRANCISCO (vascormf@sapo.pt)