NOTA DE RODAPÉ

//NOTA DE RODAPÉ

Chegou o mês de agosto presenteando-nos com o calor. Extremo, intenso, prolongado, aliviando o desespero de muitas famílias, as quais, gozando férias cá dentro, começavam a não ver dias decentes para executarem o programa idealizado: sol, praia, mar, bronze, comida, convívio, lazer.

Uma grande parte ruma ao Algarve, depois de um ano a suspirar por esse momento. Alguns, na loucura de verão, até se endividam só para dizer que estiveram lá, na praia frequentada por fulano x ou y da alta sociedade, ou no local em que uma estrela internacional da música, cinema, desporto ou política assentou arraiais.

A hotelaria e restauração, viradas para o visitante estrangeiro, esfrega agora as mãos de contentamento. Depois de um julho fraco, esta é a melhor notícia que poderiam ter, com a certeza de que várias reservas estarão a caminho de salvar uma época turística que julho fez tremer.

E chegam os nossos emigrantes, “avecs” alguns. Naquele retorno cíclico que por vezes me custa entender: alugando automóveis topo de gama só para impressionar os de cá, esbanjando recursos para mostrar importância ou estatuto que não têm lá, procurando um protagonismo social sem alicerces, apenas para ficarem bem na fotografia de agosto promovida pela comissão de festa lá da terriola. Não se coíbem, no entanto, de passar parte dos dias a falar do desgraçado Portugal em contraciclo com as maravilhas do país em que vivem – quando, na verdade, alguns trabalham lá o que nunca quiseram trabalhar por cá!

Recordo uma história: fulano emigrado que ao fim de três anos regressa a Portugal, vem num Mercedes de alta cilindrada, novinho em folha, informando amigos do sucesso alcançado – empresa de construção civil, muito trabalho, muita qualidade, muito profissionalismo. É então que alguém, bem informado lhe pergunta: então e as dívidas, a investigação judicial em curso por incumprimento fiscal, os processos movidos pelos ex-funcionários e, a cereja no topo do bolo, a denúncia confirmada de que o carro fora alugado, propositadamente, para a estadia em Portugal.

Nas redes sociais o verão português é feito de deslumbramentos e excessos com direito a selfies e fotos de cada passo que se dá: festas com ou sem bebedeira, exposição perigosa de sítios e pessoas (crianças, jovens e adultos), de bens e recursos, e até de comportamentos desviantes de personalidade…

Honra, pois aos simples e verdadeiros. Que gerem a sua vida de férias de veraneio de forma recatada e em função do que têm, na realidade, e não do que possuem, na virtualidade. Que encontram nos recantos possíveis deste Portugal, uma paz à sua justa medida, permitindo recarregar baterias para mais um ano de trabalho.

JOÃO PINHO