O CANTO E O ENCANTO DAS CIGARRAS

//O CANTO E O ENCANTO DAS CIGARRAS

O sol quente empurrava-me naquela tarde de domingo para fora do S. Caetano, depois de me recordar as vezes que a ele se refere Carlos de Oliveira em Uma Abelha na Chuva. Os caminhos eram também os seus neste outro tempo, e os mesmos lugarejos da Gândara lá estavam, entre pinhais que foram do fim do mundo! O meu rumo era a beira-mar, mas até lá, eu tinha de passar pela Lagoa Negra, pelos moinhos dos Olhos da Fervença, lembrar os ciclos da sementeira da floresta, rumar ao Rovisco Pais e à Fonte Quente, inventariar de novo a história de João Garcia Bacelar e da Senhora d´Atocha, calcorrear e almoçar numa barraca da feira que em redor do santuário sempre ali acontece com cunho de identidade.

Mas o que eu quero mesmo é fazer um interregno antes de avançar, e introduzir naquele roteiro este outro, depois da experiência que tive mal saí do S. Caetano. Foi assim, quando apanhei a mancha dos pinheiros bravos que ladeiam a estrada e senti com deslumbramento que estava a ser presenteado com um concerto inédito oferecido pela natureza: O canto das cigarras. Era um canto de milhares e milhares de cigarras machos que ali estavam agarradas às árvores a cortejar as fêmeas silenciosas e que aos poucos se iam aproximando deles, até à altura em que tornavam aquele canto menos estridente mas mais mavioso e mais convincente. Tudo como se fosse uma serenata!

Não as vi, aliás nunca as vi, tal como a maioria das pessoas que só as ouve cantar e nada sabe delas senão o que refere a fábula que as desvirtua. E valeu-me, por interposta pessoa, chegar ao conhecimento do Professor José Quartau da Faculdade de Ciências de Lisboa a quem rendo a minha homenagem pela forma abnegada como me transmitiu os seus conhecimentos. Falava eu, como se fazia, de forma tão idílica a afetuosa aproximação por altura do acasalamento. A partir desse momento, é feita a postura dos ovos fecundados nos tecidos das plantas hospedeiras neste período do verão, ou mesmo em setembro, precisamente nos locais por elas escolhidos para completar o seu ciclo de vida. E morrem em seguida, passadas umas breves duas ou três semanas! Algum tempo depois, dá-se a eclosão dos ovos, e a partir daí as minúsculas ninfas tombam no solo, onde escavam um túnel, passando a alimentar-se das raízes das plantas. Aí passam uns dois ou três anos, enquanto crescem através de mudas, até que, no início de um outro verão, emergem do solo, chegam à superfície e trepam pelas plantas e árvores onde sofrem a última muda e se transformam em adultas. A ser macho, e porque a sua função é fundamentalmente reprodutora, mal vêm as horas de maior calor ele passa de imediato a “cantar” através da vibração de um par de membranas abdominais, como se de tambores se tratasse. Cada “canto” é único e característico de cada uma das treze cigarras que habitam o nosso território, sendo que a espécie aqui referida deverá ser a Cicada orni. Como tudo isto é deslumbrante, e que outra expressão poderei eu usar para manifestar o fascínio que tenho em que esta realidade seja integrada nos itinerários da Gândara, ou não fizessem as cigarras parte do seu património.

 ANTÓNIO CASTELO BRANCO