TESTEMUNHOS – A Vida e o Fim da Vida

//TESTEMUNHOS – A Vida e o Fim da Vida

Houve dois acontecimentos recentes que me tocaram sobremaneira.

O primeiro, pelo contentamento que me deu. O segundo, pela tristeza em que me envolveu.

I

A dita cidade do conhecimento – que parece andar, em permanência, a questionar-se sobre a sua identidade e futuro –, como já o afirmei por diversas vezes, pode agora orgulhar-se de ter sabido organizar, com sucesso, os Jogos Europeus Universitários. E não foi coisa de pequena monta!

Houve múltiplas organizações envolvidas, das quais destacamos, a universidade, câmara municipal, associação académica, alguns patrocinadores, um apoio significativo do estado, tendo a parceria contribuído com um orçamento de 5 milhões de euros.

O evento desportivo utilizou 14 recintos e outros espaços, houve infraestruturas desportivas requalificadas, daqui resultando, por exemplo, um reanimado estádio universitário e um ressurgido pavilhão Jorge Anjinho.

Estiveram presentes cerca de 4000 atletas – que transmitiram à cidade um bom ambiente –, 1000 voluntários (valor de que não há registo em Portugal em eventos desportivos). Relacionado com estes números, há a realçar a entrada em competição de 300 universidades de 40 países, 500 treinadores e 300 árbitros. Houve 13 modalidades em disputa de medalhas durante duas semanas.

As informações recolhidas afiançam que os jogos foram um modelo de gestão escrupulosa, o que é de salientar, já que se tratava do maior evento multidesportivo já realizado em Portugal. Só como exemplo, salienta-se a existência de uma central de informações a funcionar 24 horas por dia. Pena foi que uma informação mais aprimorada não passasse para o exterior, modo de fazer cooperar a população da cidade de uma forma mais empenhada. Jogos houve que bem mereciam outra participação dos cidadãos. Ou Coimbra está alheada de tudo, de quase tudo, desmotivada?

E agora, caros leitores, vamos à última consideração: perante uma organização desta natureza e grandeza, não seria curial que a imprensa, rádio e televisão nacionais, propiciasse uma informação diária proporcional à dimensão dos jogos? Parece não ter sido cumprido este desiderato. Ai se fosse em Lisboa!?…

Mas fica o que importa. Parabéns à organização e aos patrocinadores. Congratulações à nossa Associação Académica de Coimbra pelo empenho organizativo demonstrado e pelo número significativo de medalhas conquistadas pelos seus atletas.

Coimbra é Capaz. Vamos Coimbra…

Obs: os números acima apresentados carecem, para serem rigorosos, de estudos estatísticos finais.

 

II

Não vou repetir tudo o que já se disse sobre João Semedo, o homem que tão cedo abalou, sabe-se lá para onde, aos 67 anos, acorrentado a uma doença grave e dolorosa, sabiamente enfrentada sem medo e perseverança. Assim pensando, vou sublinhar, apenas, os traços de vida que mais me impressionavam no João.

Médico de profissão, viveu em permanente inquietação –, só assim se justifica que tenha efetuado um dos seus últimos discursos já sem cordas vocais (que vontade férrea)! Intervenção a recordar, sempre, demonstrativa de uma força de alma muito para além do que é habitual, a causar engulhos a todos os «videirinhos» que medram na política.

Foi, pois, um homem dedicado à causa pública e portador de uma vontade cívica elevada até ao último suspiro, factos que lhe conferiram uma dimensão maior.

Esteve sempre «com os de baixo», com os pobres, com todos os que não têm voz, porque não são poderosos. Falava por eles, uma opção de vida com uma componente de missão, porventura revolucionária. Era um homem combatente, um lutador persistente.

A defesa do Serviço Nacional de Saúde foi uma das suas grandes missões em parceria com o criador do SNS, também recentemente falecido. Ainda há pouco tempo, travou uma das últimas batalhas com a feitura e apresentação de uma nova lei de bases que refundasse o serviço de saúde pública.

Tinha admiração por este homem. Pela frontalidade e elegância no debate. Pela intensidade da convicção. Pelo respeito que nutria pelos contrários.

Em pouco tempo morreram dois dos políticos que mais admirava: um António, outro João. Até.

 

ANTÓNIO INÁCIO NOGUEIRA