Postal de férias

//Postal de férias

Engana-se quem pensa que de sementeiras só as mulheres é que sabem e que só elas é que ainda tomam a sério as luas e a posição do sol para efetuarem as culturas. Desta vez é um homem dos Linhaceiros – Arazede, de 72 anos, de nome Fernando Mendes quem, sentado por detrás da sua improvisada banca no mercado da Tocha nos conta que a sua enxada só trabalha quando o tempo manda. E esse tempo são as fases da lua e as manhãs ou tardes de sol, pois foi assim que lhe ensinaram. E aponta para os feijões da trepa que tem à sua frente, uns brancos, alguns amarelos, outros listados de verde e aqueles outros de vermelho, que diz serem conhecidos por carrega o burro, devido à sua grande produção.

Todos foram semeados no minguante, da parte da tarde, quando o sol já estava fraco. Então eles nascem rápido e começam a dar logo por baixo, ao contrário dos que forem semeados de manhã e não no minguante que demoram a furar a terra, crescem muito e só dão pelas pontas. Quanto às batatas, devem igualmente ir para a terra no minguante para que deem pouca rama e muito fruto, tal como os canteiros de couves, nabiças e alfaces para depois serem transplantadas. De contrário começam logo a grelar e não embolam.

E daqui, chegou também às árvores e disse o adágio: podas no minguante, enxertias no crescente! A seu lado, tinha para vender, para além os feijões, um cesto com maracujás, que diz as pessoas procurarem muito e nuns vasos improvisados uns pés do arbusto. Também apicultor e atualmente com mais de oitenta colmeias tem uma particular paixão pelas suas abelhas e um receio incontido das asiáticas que as atacam. Em frascos calibrados, tal como deve ser, está o seu mel para venda, um mel que provém dos pinhais, das urzes, do mato. Fernando Mendes é um livro aberto com quem é um privilégio conversar sobre as suas crenças, sobre as suas atividades, sobre o que é e foi a sua vida. E dela salienta com saudade, os anos de tropa que passou na Guiné entre 1967 e 1969 como maqueiro e a quantidade de injeções e vacinas que lá ministrou. Tempos que não voltam, diz-nos!

ANTÓNIO CASTELO BRANCO