A Feira dos Vinte e Três

//A Feira dos Vinte e Três

Vá à Feira dos Vinte e Três! Esta a sugestão que aqui deixamos a quantos se proponham quebrar a rotina do dia-a-dia e queiram ir ao encontro da nossa identidade. Vale a pena: os feirantes habituais são mais de trezentos, a par de um imenso número de pequenos agricultores vindos das redondezas, e que ali procuram vender os muitos e variados géneros, na sua maioria os mimos que sempre cultivam nas suas terras e nas suas hortas.

Do Norte e de todo o Centro chegam aqueles outros pela madrugada fora, logo começando a armar as tendas e as bancas para assim exporem os seus produtos: são comerciantes de todo o nosso distrito, mas são também gente de Castro d´Aire, de Fafe, de Leiria, de Viseu, de Oliveira de Azeméis, de Famalicão, de Vagos, de S. João da Madeira… do nosso mundo aqui à volta!

Ali, um pouco de tudo se vende e se compra, com incidência primeira para os utensílios agrícolas, mas também não falta mobiliário, roupas, calçado, ferragens, louça, plásticos, tanoaria e muita e variada restauração, onde as pessoas acorrem com frequência para molhar a palavra ou para tomarem aquelas refeições de sempre, tão característica das barracas de feira. O movimento é intenso, por entre uma oferta e uma procura constante a que não é estranha a devotada atenção dos responsáveis da autarquia ali presentes, que sobretudo tentam colmatar a falta de uma maior vigilância policial por via dos assaltos. Cerca de mil viaturas entram no recinto em cada mercado mas, cá fora, o estacionamento é a perder de vista. Quem venha da cidade, porém, não tem necessidade de trazer o seu carro e, daí, ser convidativa esta visita, pois há um autocarro exclusivo nesses dias, que circula de hora a hora, com indicação ”Feira dos 7 e 23” e que parte da beira-rio, logo a seguir à Estação Nova e vai parando ao longo do percurso, tendo uma paragem mesmo em frente à porta da feira.

Sem outro critério especial que não seja aproveitar neste tempo aprazível a presença de um maior número de emigrantes, foi decidido, por competência da União de Freguesias de S. Martinho do Bispo e Ribeira de Frades, instituir o vinte e três de agosto como o dia da feira de ano, onde nem os gaiteiros faltaram!

Sendo esta uma das feiras mais antigas de Coimbra ela foi transferida da Guarda Inglesa, do local onde recolhem as viaturas dos serviços municipalizados, para Bencanta em 23 de Maio de 1992. Antes, realizava-se no espaço logo à saída da ponte, onde entretanto foram construídos os pavilhões pertencentes à universidade e mais primitivamente no chamado Rossio de Santa Clara, onde veio a nascer o Portugal dos Pequenitos. Sendo imprecisa a data da sua fundação, surgiram-nos no entanto alguns dados, a partir da consulta dos Anais do Município de Coimbra entre 1840 -1869, onde consta que em 17 de maio de 1859 foi determinado o local de Santa Clara para a feira dos vinte e três e que o governador civil em 16 de maio de 1860 institui uma feira de gado em Santa Clara. Terá sido a partir desta notícia que se começou a aceitar que a feira teria sido fundada naquela data mas, em nosso entender ela vem mais de trás. E isto porque as vendedeiras da Praça, em 1841, pedem à Câmara para não haver a feira dos 23 no mês do Entrudo, por coincidir com o seu dia, um pedido que foi indeferido. Tal, leva-nos a concluir, que vinte anos antes já ela existia! Estas mudanças e transferências, justificadas por opções de novos projectos urbanísticos, iam arredando o ruralismo que incomodava certas estirpes, cada vez que um mercado ali acontecia, sendo que ao dos vinte e três se acabaria por juntar também o dos sete. E dizia-se que eles prejudicavam o comércio local, e que a cidade era atravessada por gado que às vezes era preso por aqui e por acolá e que as mulheres lá do campo vinham para a cidade descalças – e daí, em tempos, a polícia logo à saída da ponte de ferro – e que aquilo não era digno de estar às portas de Coimbra. Tudo se disse e dizia, e há 25 anos a feira dos vinte e três e consequentemente a dos sete foi levada dali. Em boa hora Bencanta a acolheu e acolheu-a de uma maneira digna, e com dignidade a preserva e incrementa. Honras lhe sejam feitas, por a darem a conhecer, para mais quando se vislumbram projectos que podem possibilitar o desenvolvimento de um polo atractivo em seu redor com diversas valências. E, porque o seu a seu dono, deixamos patenteado o nosso apreço a quantos ali se devotam pela prossecução de iniciativas que visam o bem-comum. Que me seja permitido porém um desabafo: se tivéssemos hoje a nossa feira à saída da ponte, que requeza! Era ou não era?

ANTÓNIO CASTELO BRANCO