Postal Ilustrado

//Postal Ilustrado

A obra de José Saramago é de um encanto muito íntimo e pessoal, é o reencontro com a verdade relativa, pois cada qual tem a sua verdade, conforme Pirandello; é o escritor de raiz, autêntico, variado com uma relação muito forte com o mundo que o cerca e com uma tensão dramática com o mistério insondável da vida e cujos livros singulares não são de circunstância, improvisados, mas uma saborosa sociabilidade de convivência, entre o autor e o público.

O escritor notável, o único Prémio Nobel na literatura portuguesa, é vibrante como aborda os enigmas da vida, a problemática do ser humano, do homem concreto, tangível, real, finito.

E ainda como disseca a religiosidade do indivíduo como ser fisiológico, antes do tudo, a tendência dogmática de uma parte da sociedade, a fealdade do mundo urbano preso a ideias impostas por castas religiosas, os dilemas do ser, o desespero do homem mutilado ou cercado por arame farpado no seu pensamento e liberdade de escolha e ajusta as suas páginas mais brilhantes à libertação da pessoa como ente cognoscitivo cheio de credos e transmite com rigor as mil versões estéticas, morais, sociais e éticas do ser que pensa!

Grande escritor. Como foi brilhante jornalista.

Na complexidade da sua obra, da sua arte de escrever quente, sensual, desigual e coerente há um relacionamento formal que lembra, aqui e ali, Aquilino Ribeiro, na riqueza do idioma sem o cansaço morfológico da palavra e vitaliza em cada livro a essência da verdade auscultada num cânone de beleza à escala humana.

Controverso. Para uns anticlerical, para outros um grande escritor que vive a verdade sem tabus.

Os seus livros, o seu mundo romanesco reproduzem a perceção da experiência do intelecto do poeta, dramaturgo, jornalista, romancista, ensaísta, a necessária maturidade cultural de quem descobre outras vias de comunicação com os leitores, as verdades da vida, com livros desossados do barroco ou de modas efémeras, invulgar este rebelde escritor que nunca se cingiu a figurinos, mostrou sempre o equilíbrio apolíneo dos grandes escritores mundiais.

MANUEL BONTEMPO