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| Banco de Tempo há sete anos a trocar horas em Coimbra |
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Como é que surgiu esta ideia de criar o Banco de Tempo? Esta ideia surgiu fora de Portugal, no fim dos anos 90, com experiências em Itália, que se estenderam a outros países, nomeadamente Espanha, concretamente a Barcelona, que é o modelo inspirador de Portugal. O Banco de Tempo vem numa lógica de dar resposta a algumas necessidades que antes se encontravam em vizinhança, como corresponder a necessidades de relacionamento, pequenos serviços ou contribuir para redes de intercâmbio de solidariedade de pessoas. Sempre tendo como princípio a troca, numa lógica de rentabilizar tempos e serviços trocados, não numa lógica de voluntariado. Se tenho tempo posso disponibilizá-lo. Mas dou a alguém, alguém esse que também dá a outro um tempo de si, fazendo alguns serviços. Em Portugal as agências nasceram no final de 2001 e a de Coimbra foi fundada nos inícios de 2002, há sete anos. Como é que a população reagiu a este novo Banco? Quando apresentamos a ideia às pessoas a recetividade é muito boa no sentido de a considerarem bonita, tão fora dos esquemas da sociedade atual em que tudo se compra, em que há alguns serviços nada valorizados e outros tão valorizados. Portanto a ideia agrada muito. Agora se me perguntar se essas pessoas aderem ou se se fazem membros do Banco respondo que não. Este é um Banco de Tempo que precisa de tempo. As pessoas dizem que é uma ideia boa, com uma filosofia muito inovadora mas muitas ainda não encontram no seu horário um tempo para dar. A falta de tempo é, de facto, um dos grandes problemas da sociedade atual… E é a essa falta que os Bancos de Tempo podem dar alguma resposta. Posso não ter tempo para um trabalho de que gosto muito, como ler, porque tenho que fazer compras, por exemplo. Mas se eu puder encontrar alguém que não se importe de me fazer as compras, troco esse tempo por leitura. Quantas pessoas estão inscritas no Banco de Tempo? Inscritas temos muitas mas nós fazemos uma distinção entre as que estão inscritas e as ativas. Neste momento temos 60 membros ativos. Isso também se deve muito ao facto de ser uma cidade com muitos estudantes, com uma população muito flutuante. Infelizmente temos muitos membros que, pelos mais diversos motivos, sentem que no momento não têm tempo para participarem ativamente no Banco. Como é que funciona este Banco? Há uma agência onde é feito o atendimento, há uma míni organização, um suporte que passa por fichas de inscrição, que se introduzem numa base de dados. As pessoas leem as condições e os objetivos do Banco de Tempo, inscrevem-se e pedimos-lhes que nos indiquem duas pessoas que possam dar referências. Isso era mais no início porque agora normalmente as pessoas que aparecem são amigas ou conhecidas de outros membros, portanto as referências são outros membros. Depois de todo este processo e de informar a agência dos serviços que se dispõe fazer e pedir, assina um documento e passa a ser membro ativo. Emite-se um cartão e são-lhe entregues alguns cheques. A designação de Banco trás com ela alguns procedimentos dos bancos normais. Há pagamentos de serviços só que não é com dinheiro, é com outro serviço e em horas. A unidade de tempo é sempre a hora e os serviços valem sempre o mesmo, quer seja corrigir um texto, ir às compras, preencher impressos, fazer a bainha de umas calças, acompanhar alguém… A pessoa passa o cheque a quem faz o serviço que, por sua vez, vem depositá-lo à agência, como se faz nos bancos comerciais. No Banco há uma conta corrente de serviços prestados. Que género de serviços são mais comuns? Temos uma lista muito grande, desde acompanhamentos a eventos, passear, andar a pé, leitura, fazer compras, lições de várias coisas (inglês, espanhol, informática), tomar conta de crianças, ajudar a fazer os trabalhos de casa, passar a ferro, jardinagem, tratar de animais, pequenas reparações…. Temos muitas trocas tanto ao nível das lições de informática como de apoio à informática. É o maior número. Também fazemos traduções, correções de textos, culinária, quer tradicional quer vegetariana. Nestes casos fazemos também trocas de grupo, em que a pessoa faz a demonstração para várias pessoas. Isso também acontece nas lições e na informática. Muitas vezes essas trocas decorrem nas próprias casas dos membros ou na sede. Tem que haver uma grande relação de confiança entre os membros? Sim. Tem e não nos temos dado mal. Nunca tivemos problemas. Mas temo-nos apercebido que há muita gente que se disponibiliza a cuidar de crianças e a ajudar a levar ou trazer da escola e isso nunca é pedido. Temos refletido no porquê e concluímos que deve ser uma questão de confiança. Quando falamos de crianças a confiança precisa de ser ainda maior. Quem diz com crianças também diz com idosos, porque são mais vulneráveis. Nestes casos falamos de trocas pontuais. Enquanto nas lições tentamos que seja sempre a mesma pessoa a dar a aula, no acompanhamento é mais difícil mantermos sempre o mesmo membro. Isso cria dificuldades. Há uns serviços que precisam de mais confiança do que outros. Mas nestes sete anos não tivemos nenhuma perturbação. Existe uma série de mecanismos dentro do próprio Banco que ajuda a que não exista nenhum problema relacionado com as relações. Existem sempre encontros de membros, o que leva as pessoas a conhecerem-se e a estabelecerem relações. Muitas vezes criam-se empatias e algumas trocas já são feitas diretamente, sem passar pelo secretariado. Os membros acabam por negociar e telefonar diretamente e depois só comunicam à agência o depósito que foi feito. As trocas de grupo também ajudam porque as pessoas juntam-se e criam laços. Esse é, aliás, um dos nossos objetivos, que passam por criar uma rede de solidariedade, combater o isolamento e a solidão. Isso tem sido conseguido. Estamos a falar de membros das várias faixas etárias? Sim. Temos pessoas de várias gerações. Há pessoas dos 20 anos e outras com mais de 70, embora os de 20 sejam mais flutuantes. Temos muitos membros no ativo, com horários rigorosos, e muitas pessoas reformadas, que já têm mais tempo. Mas posso dizer que são muito mais mulheres do que homens. Em termos pessoais, o que é que a trouxe para o Banco de Tempo? Foi a ideia em si e o facto de este ser um projeto do GRAAL – movimento internacional de mulheres que está quase a fazer 100 anos no mundo e que em Portugal tem 50. Nasceu na Holanda, com mulheres cristãs empenhadas na transformação da sociedade, nomeadamente no trabalho de valorização e de contributo para um melhor estar social, sobretudo na valorização da mulher. Também troca? Sim, também troco. Tenho feito algumas coisas e pedido outras. Neste momento estou aposentada, mas era professora do ensino secundário e formadora de professores. Que balanço faz destes sete anos? O balanço não é mau mas esperava mais dinamismo nas trocas. Quantas transações são feitas, em média, por mês? Depende muito dos meses mas direi que no pior mês são feitas umas 20/30 horas de troca, o que dá uma média de uma hora trocada por dia. Mas neste último trimestre o número de trocas tem aumentado. Estão prestes a mudar de instalações… Sim, iremos para a zona da Casa Branca, para umas numas instalações no Centro de Formação da APPACDM. Esperamos uma maior procura a partir dessa altura já que vamos ter um apoio grande da APPACDM, que nos vai permitir ter sempre o telefone disponível durante as horas de expediente. Podemos não estar lá nós mas a telefonista vai pôr-nos em contacto com quem nos procura. Isso é muito importante. Que mensagem gostaria de deixar para os potenciais membros? Se tiver um bocadinho de tempo partilhe-o, troque serviços no banco de Tempo. Nem que seja apenas uma hora que tenha livre troque-a por outra. |



