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Por Manuel Bontempo A poesia acontece. Quase sempre acontece. Não se faz, não se fabrica. Assistimos hoje a uma poesia que é feita nas complicações herméticas, cora laivos de intelectualista, indecifrável ou sensualista ou ainda com facilidades oferecidas pelos livreiros de todo um bem estar de obras pequenas, reduzidas, mal proporcionadas no valor intrínseco e com as tradicionais banalidades, mas que servem de prato de mesa para elogiosos lançamentos, com pompa e circunstância, com os habituais snobs do burgo, as senhoras alindadas nas melhores vestimentas, num festim de palmadinhas nas costas.
Debuxa-se nesses livros uma série de caricaturas e as habilidosas artimanhas de uma medíocre poesia apadrinhada pela fama literária do bairro, com frases relatadas e discutidas pelos doutos entremeadas com os sorrisos postiços dos jet-set num festim sibilino fabricado em série como quisessem usar o esquema lógico dos clássicos ou, para espanto auto dominados de poesia revolucionária ou os arautos dos iluministas dum novíssimo verbo.A poesia quase morreu! Este universo humano fica sujeito a um pseudo progresso da palavra, do conceito, do intrincado, e estes “poetas”, na sua maioria deixam-se encantar ela rima fácil, corriqueira, ou pedante e a mediocridade de certos livros que se rotulam de cultura e otimismo social perdem o sentido da inteligência mas, paradoxalmente, bem aceites pelos editores ou patrocinadores. Há poetas obscuros que tem os benefícios materiais dos mecenas. E quanto mais virtuais e de complexos inconscientes melhor para uns tantos “padrinhos” que não se importam com as emoções estéticas e as fases da criação estética. O mistério da poesia é diametralmente oposto a uma mera absolutização do verso. E se a poesia deve representar o seu “tempo” nunca pode fugir à dignidade e a uma lúcida consciência que fixe a personalidade do poeta, do artista, criador. Já não existe o plantio seleto do verso, são e escorreito, e os Miguel Torga, Eugénio de Andrade, Sophia de Mello Breyner Anderson, Manuel Alegre, António Arnaut, João Mendes Ferreira, Paulo Ilharco, Paulino Mota Tavares, Teles Marques, e outros com todo o esplendor da criação ou do sentimento humano, são a luz nos horizontes temporais da poesia, e por sua vez, Mariana Silveira, Alcina Marques e os Camilo Pessanha, Eugénio de Castro, uns numa atitude fundamental da filosofia e duma vigorosa estética romântica e outros num lirismo duma fantasia autónoma marcam a riqueza da arte de versejar. Natália Correia, Alberto Serpa, Carlos Oliveira, são poetas de virtualidades muito peculiares e de natureza subjetiva sempre presentes ainda hoje. Há quem queira transpor a poesia do romantismo para uma espécie de socialismo a modos de Antero Quental, que é a força da originalidade e do poeta sobreviver no seguimento de poetas imortais, como Antero Quental, Miguel Torga, Goethe, Byron, Camões ou Petrarca num realismo acrítico, que, no fundo e uma curiosa forma de expressão. José Régio ou Fernando Pessoa e David-Mourão Ferreira respondem, por sua vez, a densas virtualidades e intenções dos maiores poetas da hora presente com “discípulos” seduzidos por estes grandes poetas. Há novos poetas mesmo em Coimbra a criar um humanismo com cariz morfológico da palavra, uns nas contradições e no desejo de acertar o mundo num significado muito sartreano e na funcionalidade cognoscitiva a lembrar Rimbaud. Terra de trovadores, de cultura, edita, de vez em vez bons livros de poesia onde existe um caráter pessoal e a sedução duma educação cultural, fisiológica do verso, do canto, do desconhecido ser conhecido perante a vida. Os românticos, os simbolistas e super-realistas estão na poesia com relevo. É ver como decifram o mistério da poesia e compreendem a sua riqueza. Graciano Ramos, Adelaide Silva, no intuitivo criador, Ramos Costa ou Alda Belo, numa evolução paralela ao “romantismo da metade do século XX”, com livros publicados sem a pobreza das palavras têm a ver com a arte de versejar autêntica. Dos vivos, dos que se cruzam connosco, nestas ruas de Coimbra sobressaem António Arnaut, Paulo Ilharco, Alcina Marques, e ainda os desaparecidos não há muito João Mendes Ferreira, J. Sicar este com livros inacabados, artisticamente distanciados mas todos de grande relevo. Criar e recriar, eis também a função da poesia; pegar no destino humano e prometer aos homens outra visão do mundo diante do mistério das palavras, das alegorias das metáforas, ou ainda por uma angustia avassaladora de transmitir a salvação da espécie humana num momento de crise de valores. A poesia portuguesa estimula o leitor e aguça os instintos, as emoções, aflora as consciências quando se associa as formas e esmiúça os fenómenos psíquicos, o amor, o ciúme, a paixão, as imagens e um conjunto de sensações adormecidas. A poesia é beleza transfigurada e desde a poesia quinhentista que se sente na poética lusa a ideia da beleza. E é essa “ideia, da beleza” que anda muito arredia dos poetas que surgem aos montes e que todos os dias lançam gongoricamente os seus livros... Há poesia em Coimbra, terra fadada para o verso, para o canto, uns tradicionalmente glorificados e outros editados numa mera disciplina rebarbativa e de consuma) caseiro que traduz o interesse dos salões mundanos de editar mais uns livros para divertir. Já fui, como tanta gente, a lançamentos de livros que foram um logro. Por outro lado já assisti por dever de ofício ao lançamento de livros valorosos que foram - e são - um festim para os sentidos onde todos, sem exagero, ficaram com as belas letras bem retidas na sensibilidade. Já escrevi prefácios para bons livros e outros menos bons, mas que não podia fugir ao interesse e ao orgulho dos autores. A poesia acontece. Não se fabrica. A poesia atua em nós, no plano artístico e emocional, entra -no mais íntimo da alma, assim como os poetas vivos de Coimbra, nossos contemporâneos, que passam por nós nas nossas ruas, gente que é “poeta”. E neles há uma consciência urbana, uma evolução social, uma aquisição da experiência e ainda romanticamente uma nostalgia da saudade... Os poetas de Coimbra, que se deixam contagiar por este fenómeno transmitem uma mensagem esteticista nas variadas formulas de expressão, quer na beleza formal e quer na universalidade temática. Mais do que em qualquer outro período histórico o “poeta” é muitas vezes uma filósofo, um crítico, que desvenda mundos interiores, numa larga dimensão ontológica. A poesia não é uma arte periférica de uns tantos livrecos que vão aparecendo nas livrarias é, também, uma conceção existencialista e a procura da liberdade, essa liberdade contida no canto do poeta mesmo que seja um simples monólogo interior. Gosto de ler os nossos poetas, de todos os tempos, de me debruçar sobre as suas “mensagens”, de ver as aproximações de uns com outros, de enxergar as características da nossa literatura com a literatura estrangeira, de sentir a visão prismática ou a proposição dum intelectualismo que força o leitor a uma profunda reflexão. O mundo dos poetas, dos grandes poetas, também pode ser o nosso logo que o saibamos ler, estudar, compreender para além das conexões das ideias, das imagens e descobrirmos a “inquietação” da poesia. Meros solilóquios, estilizações sincopados, versalhada a martelo é a negação da poesia. Zeaca Afonso, poeta extraordinário no seu sistema de valores alia o verso admirável à música, e o canto nunca foi um elemento acessório na sua luta pela Liberdade, e ainda hoje, não se fez justiça à sua Obra diversificada e heterogénea na poesia portuguesa. O Estado, as forças públicas, estão em dívida para uma figura ímpar da cultura portuguesa. Também esta personagem ilustre foi um poeta de Coimbra, de Portugal, a figura mais conhecida no mundo contemporâneo pelo seu gesto heroico. E é assim reconhecido em França, Alemanha, pela Europa, como se nota não nossas viagens avulso e pelo depoimento de homens e mulheres do pensamento europeu. Há em Zeca Afonso as fórmulas intermédias da narração quase épica, do versejar e cantar que se transforma numa consciência nacional. Mesmo Coimbra ainda não lhe prestou a devida e merecida homenagem! |