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Após o Mundial, pensar Portugal

 Por Eduardo Proença-Mamede

     O Mundial de Futebol 2010 terminou e os jogadores regressaram a casa. No meio da deceção da derrota e de todos os sentimentos menos alegres que nos podem assolar na ocasião, cresceu em mim um misto de alegria por ver cessar este estado de embriaguez com que os governos mantêm os povos sempre que querem aumentar impostos e lançar coimas injustas sobre quem governam.

Dizia-se antigamente, sempre que alguém queria mais do que lhe era devido: “Vá roubar para o meio da estrada!” – alegando ao facto dos bandoleiros e salteadores atacarem diligências e trens de viagem no meio das estradas. E equiparo este estado de coisas com as famosas “scuts” e os famigerados “cheaps” que o governo quer impor a tudo e todos. Lembro-me, ainda há 20 anos, das revoltas que tiveram lugar às portas das portagens na ponte 25 de Abril ou ponte Salazar (como lhe queiram chamar), das “democráticas” cargas de pancada que o então primeiro-ministro Aníbal Cavaco Silva ordenou e da subsequente queda do seu governo. José Sócrates Pinto de Sousa é o próximo candidato! Só que desta vez os portugueses aprenderam algo com tudo isto e não querem ouvir falar de PEC enquanto, em prol de deficit nacional, não for o governo a dar o exemplo, extinguindo os inúteis e obsoletos governadores civis, não pararem as renovações das frotas automóveis para os ministérios, não terminar o regabofe dos deputados em S. Bento e as reformas megalómanas que muitos recebem após permanência inútil de dez anos por aquelas cadeiras e sofás. Interessante como o ex-ministro, ex-conselheiro de Estado Dr. Dias Loureiro, o mesmo que não possuía uma conta bancária superior a 5.000 euros no banco para confiscar, apesar de aparecer no DIAP num Jaguar com motorista, desponta agora como proprietário do melhor “resort” turístico de Cabo Verde e por lá se mantém gozando bons ares, boa praia e melhor tratamento.

 

     Em todo este processo de crise, os portugueses viram bem como PS e PSD são um e a mesma coisa no que respeita à cobrança de novos impostos e em tudo o que seja “ir ao bolso do contribuinte”. Mesmo que os autarcas municipais do partido estejam contra, a vontade é a mesma e a oposição é coisa inexistente. “Farinha do mesmo saco!” – como se dizia noutros tempos. Dos seus “respeitáveis” militantes do passado, não há um só que, passando nas cúpulas do poder, não esteja bem e próspero na vida. Temos que aporteguesar a linguagem: os bois de hoje serão sempre respeitáveis senhores, gozando mordomias muito acima da média, mesmo que só tenham feito asneiras enquanto administradores do Erário Público e tenham atropelado todas as vontades dos cidadãos. Já não seria remédio eficaz para todos estes problemas um outro 25 de Abril; remédio eficaz seria uma outra Revolução à francesa, onde as fortunas dos políticos dos últimos 25 anos fossem confiscadas para pagamento do deficit e se passassem à guilhotina os mesmos para, dentro de cinco ou 10 anos, não ficarmos a pagar reformas principescas a todos. Portugal é dos países da zona euro onde se pagam maiores e mais elevados impostos e onde menos é dado ao povo em troca. Temos também a classe política mais bem paga (em relação à dimensão e capacidade da nação!) e onde os mesmos são os mais medíocres das estatísticas mundiais. Basta ver o modo como querem lançar os impostos, para se ter em conta a mediocridade e o autismo dos mesmos governantes, alheios que sejam às privações e ao viver quotidiano dos portugueses.

 

    Comemora-se este ano os 100 anos da implantação da República e só recordo que o primeiro cidadão presidente Teófilo Braga ia para o palácio de Belém em transporte público, mesmo sendo o país, em 1911, uma nação essencialmente monárquica, católica e conservadora. O presidente Bernardino Machado, apesar de ausente quando da revolução de Sidónio Pães, em 1918, sua família recusou-se a sair do palácio de Belém por a sua mulher ter apresentado os recibos de renda que o mesmo pagava mensalmente pelo uso de uma casa do Estado. E quando os netos de Manuel de Arriaga partiram um serviço de porcelana que lá estava desde o tempo da Rainha D. Amélia, este mandou logo o motorista comprar outro serviço bem caro ao Chiado para repor a falta que a sua família cometera. Vieram depois as décadas de Estado Novo e o governo do Dr. Salazar, homem que pode ser acusado de muita coisa mas não de falta de patriotismo, nem falta de honestidade no uso dos dinheiros públicos. Por tudo isto o povo português não estava muito acostumado à falta de honestidade dos membros do governo como nas últimas décadas nos têm presenteado. Também o culto à volta do chefe não era tão exacerbado. Salazar nunca abandonou a sua modestíssima casa de Santa Comba e não há em Portugal nenhuma Fundação Carmona, nem Instituto Craveiro Lopes ou Américo Tomás. As regalias dos ex-presidentes da República eram mínimas e não um fardo tão pesado para o Erário Público como hoje são. E, tendo em conta que eles já foram cinco, que mais teremos que pagar, quando estes não se contentam sem uma residência oficial e todas as mordomias. Exceto o General Ramalho Eanes, todos os demais têm consumido milhões às Finanças, alegando sempre a nobreza (ou falta dela!) das causas com que gastam.

 

    Por outro lado, os portugueses cansaram das comissões parlamentares estabelecidas sempre que um escândalo atinge membros do governo. Elas são motivo de muito barulho e nenhum préstimo. Como o ditado que diz “a montanha pariu um rato!”. Eles falam, falam, falam, descortinam-se algumas verdades, mas todos se escudam na imunidade, parlamentar ou não, e tudo fica “em águas de bacalhau”. Digamos que dos casos fica apenas um ligeiro travo do gosto ou um ténue aroma do perfume base que, neste caso, cheira sempre ao que se sabe! 

 

    Há mais de 150 anos, Karl Marx escreveu “a religião é o ópio do povo”. No século XX transformaram o ópio em futebol, afirmando muito governante que era laico. Agora, que não há visita do Papa e acabaram os futebóis, em que a grande maioria dos portugueses não tem dinheiro para umas férias, seria bom que se pensasse um pouco mais em Portugal, nestes indignos impostos que nos fazem pagar, já que obrigam muito pacífico cidadão a revoltar-se e ter que ser terrorista no seu próprio país, já que a justiça judicial existente ou é póstuma, ou termina arquivada por excesso de tempo gasto em papéis e burocracia inútil. Se Cavaco Silva o fez de propósito, não o poderemos saber. Mas recomendando os portugueses a fazerem férias cá dentro será o melhor modo de denotarem as espoliações do governo, deste e dos anteriores.